domingo, 23 de junho de 2013

CABELOS, FIOS, TEIASSSSS


O uso de cabelos em diferentes culturas


Os cabelos são da maior importância para os mais diferentes povos, em diferentes regiões e nas diferentes épocas. Têm a mesma origem embrionária que as unhas e, como elas, sendo formados por células queratinizadas, não se decompõem facilmente. O fato de continuarem a crescer mesmo depois da morte do indivíduo favorece o surgimento de fantasias de mortos que se levantam do túmulo para atacar os vivos. Muitos povos acreditam que os cabelos e as unhas continuam relacionados ao indivíduo mesmo depois de cortados; por isso, são considerados tabu, não devendo ser cortados nem jogados fora. Na quimbanda podem ser utilizados para a realização de atos de bruxaria.
Associada à idéia de cabelos = virilidade, vem a do corte dos cabelos como emasculação, mutilação, humilhação. Isso é encontrado no mito bíblico de Sansão, na China e entre alguns índios da América do Norte. Em todo o mundo a entrada para o estado monástico inclui o corte dos cabelos como sinônimo de renúncia e sacrifício. Uma variante é o uso da tonsura pelos clérigos. No caso de criminosos, cabelos cortados rente marcam a humilhação, publicam o delito e expõem socialmente a pessoa. Criminosos e loucos tinham os cabelos raspados quando recolhidos às instituições, como forma de tirar-lhes a identidade. Para as pessoas submetidas à quimioterapia, a perda dos cabelos é muito difícil de ser aceita; à conscientização da perda da vitalidade soma-se a sensação de humilhação e exposição.
O corte e a disposição da cabeleira demarcam a personalidade, a função social ou uma mudança no tipo de vida. É também algo civilizatório: cabelos e crianças não podem crescer desordenadamente, precisam ser cortados para que ganhem forma.
Para muitos povos, o primeiro corte dos cabelos é ocasião de importante cerimônia para proteger contra os maus espíritos. Entre os incas, o primeiro corte de um príncipe herdeiro ocorria quando ele completava dois anos. O futuro rei recebia seu nome definitivo e se tornava uma pessoa; perdia os cabelos ligados à vida pré-natal, dissociando sua força vital da de sua mãe, o que era confirmado pelo desmame. O corte dos cabelos simbolizava a cesura do nascimento psíquico, o rompimento do estado simbiótico da primeira infância, permitindo que se alcançasse a individuação e uma identidade própria.
Nossos índios do Xingu raspam os pêlos do corpo, incluindo as sobrancelhas, desde muito cedo, para não parecerem macacos, mas os cabelos são considerados sensuais. Quando ocorre a morte de alguém muito próximo, as mulheres os cortam, expressando assim como essa perda as mutilou. Entre os carajás, a duração do luto será determinada pelo crescimento dos cabelos.
Muito freqüentemente encontramos a fantasia de lindos cabelos como idênticos à capacidade de atração, situação na qual quem atrai detém o poder, já que faz aflorar o desejo do outro. A idéia de provocação sexual ligada à cabeleira feminina– desejo e sensualidade tomados como pecado– está na origem, na tradição cristã, do fato de as mulheres não poderem entrar na igreja de cabeça descoberta e, na tradição muçulmana, de não poderem se apresentar assim em público; entre os judeus ortodoxos, a partir do casamento elas não se apresentam com os cabelos à mostra, passando a usar perucas ao sair. Também entre eles, para os meninos, os cachos laterais (o peiot) são mantidos sem nenhum corte, assim como, posteriormente, a barba.
Cabelos desgrenhados estão associados ao luto, como expressão de dor e desespero, e, nos rituais das lojas das sociedades secretas, à não submissão às regras sociais. Entre os hippies, os cabelos desalinhados eram um sinal de liberdade e de não aceitação dos valores vigentes. Cabelos black power foram utilizados como afirmação da negritude; já o tererê, enfeite colorido entremeado aos cabelos, tem uma conotação de retorno às origens.
CABELOS E CONTEXTO: Vivemos numa sociedade que privilegia a juventude como sinal de potência e vitalidade; o envelhecimento é visto como castração e, dessa forma, não há possibilidade de considerar o amadurecimento e a sabedoria– alcançados com o aprender com a experiência– como algo bom. Na cultura do rápido e descartável, não há tempo para assimilação; procura-se a todo custo destruir o mundo mental responsável pela percepção e pela consciência da finitude.
A palavra têmpora está associada a tempo e indica a região da cabeça onde geralmente aparecem os primeiros cabelos brancos, que mostram que o tempo passou; sinal de aproximação da morte, precisam ser rapidamente pintados para ocultar este horror: Somos mortais! Quando olhamos à nossa volta, damo-nos conta de uma quantidade imensa de produtos para cabelos, de tipos de escovas, pentes e técnicas, conforme o que se deseje obter. O número de pessoas que se submete a isso tudo não é nada pequeno e o tempo despendido, enorme, medida da importância que os cabelos têm para nossa economia psíquica.
Dentro desse quadro, seja numa situação narcísica de exagerado culto à vaidade, seja de cuidados com a vida, os cabelos têm posição de destaque. Ao entrar num salão de beleza, algumas pessoas estão curvadas, cabisbaixas, silentes, deprimidas. Conforme seus cabelos vão sendo cortados, a postura vai se alterando: levantam o corpo e a cabeça, sorriem para a imagem no espelho e para a cabeleireira. Os cabelos, tendo crescido, perderam o formato; com isso a pessoa sente que perdeu a beleza, a identidade. Com o novo corte, restabelece-se o contorno que marca os limites, restaura-se a pele psíquica, ela se recupera, se re-encontra.
Entre as jovens, geralmente os cabelos são mantidos longos, tratados, coloridos; podemos pensar em cabelos como substitutos do pênis. Observamos, no entanto, que quando se casam, e principalmente quando têm filhos, elas os cortam, abrindo mão desse poder, dessa representação de onipotência e bissexualidade. Ao se tornarem capazes de serem mulheres e mães, com limitações e possibilidades reais, os longos cabelos perdem o sentido, passando a ser vistos como dando trabalho demais.

CABELOS E A PSICANÁLISE: Freud (1923/1976) nos ensina que o ego resulta das sensações da superfície do corpo– portanto, da pele–, como uma diferenciação do id no contato com a realidade, representando as superfícies do aparelho mental.
A partir das sensações corporais que o bebê vivencia (através dos contatos físicos e psíquicos que tem principalmente com a mãe), vai se estabelecendo uma primeira noção de pele, algo que envolve e demarca um limite do corpo e do eu, que contém as partes do corpo e da personalidade e que permite que as trocas aconteçam (Bick, 1967/1991). Anzieu (1985/1988, p. 26) aponta: os bebês mamíferos se agarram aos pêlos de suas mães como forma de alcançar segurança física e psíquica []. É agarrando-se ao seio, mãos, corpo e roupas da mãe que [o bebê] desencadearia como resposta condutas atribuídas a um utópico instinto maternal. A catástrofe que persegue o psiquismo nascente do bebê humano seria a do separar-se e depois– assinala mais tarde Bion, de quem retomo a expressão– isso o mergulha em um terror sem nome.
Ele nos remete à proposição de Bowlby (1958), da existência de uma pulsão de apego; esta explicaria a observação dos etologistas de que os bebês, tanto de aves como de mamíferos, se desesperam com a ausência da mãe tanto quanto os bebês humanos, e de como isso não está ligado à alimentação ou à oralidade, pois os filhotes apenas ficam junto delas ou as seguem. Essa pulsão tem por finalidade proteger os filhotes de predadores, mantendo a mãe a uma distância segura, e é estendida aos machos que protegem o grupo.
Anzieu fala também das idéias desenvolvidas por Hermamm (1930), de como os filhotes de mamíferos se agarram aos pêlos dos pais e de como o desaparecimento dos pêlos no corpo humano tornou aleatória a satisfação dessa pulsão e transformou as áreas cobertas de pêlos nas zonas erógenas favoritas da pulsão sexual. Em decorrência, os cabelos foram erotizados, considerados belos e atraentes.
Lembra ainda como Harlow (1958), estudando variáveis da relação mãe-bebê, realizou experimentos com bebês macacos e suas reações a mães de pano e mães de arame, observando como eles sempre preferiam as primeiras como objeto de apego. O reconforto alcançado com o contato com a maciez de uma pele foi sempre maior do que com aleitamento, calor físico ou acalanto. Anzieu propõe também um desejo tanto de incorporar como de ser incorporado pela pele, anterior à incorporação oral, e, supomos, possivelmente fetal.
De nossas origens como primatas vem a necessidade de agarrar-se aos pêlos para não cair, mantida como reflexo neonatal. Podemos dizer que os cabelos, dada a nossa perda dos pêlos, oferecem suporte anatômico para isso, atendendo a essa necessidade. Estamos, portanto, diante de aspectos muito primitivos, ligados à nossa herança filogenética, a um agarrar-se aos pêlos-cabelos para não correr risco de queda.
Na posição autista-contígua (Ogden, 1986/1989), a criança tem uma captação sensorial, concreta, procurando aderir à superfície do objeto para alcançar a sensação de segurança; as defesas são por identificação adesiva (Bick, 1967/1991), e a vivências de bidimensionalidade (Meltzer, 1975/1979); posteriormente, com o desenvolvimento da noção de pele-superfície para a de pele-bolsa, que contém as partes tanto do corpo como da mente (Anzieu, 1985/1988), surgirá a noção da tridimensionalidade e conseqüentemente a possibilidade do uso de defesas por identificação projetiva (Klein, 1946/1982).
Francis Tustin (1990) nos lembra que o recém-nascido provavelmente passa por estados em que estão presentes terrores atávicos, associados ao medo inato de animais predadores; eles asseguraram a sobrevivência da espécie, e, embora rudimentares, continuam presentes. Esses terrores são atenuados por uma mãe que, no estado de preocupação materna primária (Winnicott, 1958/1978), envolve o bebê num continente que amortece os impactos. Quando isso não ocorre, o bebê fica exposto a esses impactos e é obrigado a reagir a eles numa tentativa de se proteger, ficando preso a um universo de sensações táteis de superfícies; isso é conseguido através do desenvolvimento de defesas autistas. Sendo este um estado protomental, não podemos falar em fantasias, mas talvez em sensações físicas de terror.
Se relacionarmos as sensações terroríficas de um cair sem fim à nossa herança como primatas, teremos de pensar nos padrões inatos esperados pelo bebê e como nesse contexto pêlos-cabelos têm a função de proteger a vida e diminuir a ansiedade. Ogden (1986/1989, p. 151) esclarece essas questões:
Para Klein, o objeto interno tem sua origem nas pré-concepções herdadas associadas às pulsões. Não se herda a pré-concepção mental do objeto, mas a estrutura para a representação, e se dá forma à representação mental quando o bebê encontra os objetos concretos. [] O bebê não prevê o seio concreto no sentido de ter uma imagem mental dele antes de encontrá-lo; por outro lado, ele o reconhece quando o encontra porque é parte de suaordem interna biologicamente estruturada que estava silenciosamente disponível para lhe dar forma [tradução livre da autora].
Se tomarmos seio como abarcando todas as funções maternas, tanto as concretas como a capacidade de continência e de sonhar (Bion, 1961/1991), o cabelo também estará aí incluído.
Segundo a hipótese que formulo, uma das pré-concepções que nossa espécie desenvolveu é que existe algo– pêlos-cabelos– que nos protegerá de cair; assim, a função de defesa biológica dos cabelos é estendida às nossas angústias mais precoces. A partir disso, sua importância fará parte do imaginário humano, aparecendo nos hábitos e costumes de cada povo, em seus contos e mitos, e conforme a história de cada indivíduo.
Mas o que pode ocorrer com respeito a cabelos quando mãe e bebê se re-encontram depois da separação imposta pelo parto? Quando uma jovem mãe amamenta ou afaga seu filho, muito provavelmente seus cabelos caem sobre o bebê. Temos uma conjugação: o reflexo de preensão, que está filogeneticamente relacionado à sobrevivência e à proteção contra as ansiedades de um cair sem fim, e a importância que os cabelos têm para o imaginário materno. Que objeto é oferecido ao bebê pelas fantasias inconscientes da mãe no jogo de projeções/introjeções que essa relação necessariamente contém e que se acasala com as pré-concepções existentes?
Num trabalho de anos de observação, Souza-Dias verificou que bebês cujas mães tentaram desesperadamente abortar apresentam intensa reação a estranhos, quase nenhuma capacidade para tolerar frustrações e se agarram aos cabelos delas com um ódio intenso (comunicação pessoal, março de 2006). Fazemos a suposição de que expressam sua luta desesperada para sobreviver e um ódio a esses cabelos-mãe que não oferecem sustentação; estes tentaram lançá-los no abismo da morte, e, ainda assim, são tudo o que têm para se segurar....
 
 

domingo, 9 de junho de 2013


 

  UNIVERSO
 
 
De acordo com a teoria da relatividade, o espaço pode expandir-se tão rápido quanto a velocidade da luz, embora possamos ver somente uma pequena fração do universo devido à limitação imposta Por essa velocidade. É incerto se a dimensão do espaço é finita ou infinita. De acordo com o modelo atualmente aceito do Universo, ELE surgiu de um único ponto ou singularidade onde toda a matéria e energia do universo observável encontrava-se concentrada numa fase densa e extremamente quente.
 
 
 
"Não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio, porque suas águas não são as mesmas e nós também não somos os mesmos". Esse fluxo ou transformação perpétua de todas as coisas, porém, não se faz ao acaso ou caoticamente. Segue uma lei natural. "Trata-se uma unidade que é multiplicidade e de uma multiplicidade que é unidade. Tudo é Um. O mundo é a tensão dos contrários múltiplos e essa multiplicidade tensa constitui a unidade do uno".
 
 

2.  A VIDA

A vida é um fenômeno material sumamente complexo. Ela se distingue não por seus componentes químicos, mas pelo comportamento destes; conserta, sustenta, recria e supera a si mesma.

Nossas tentativas frenéticas de sobreviver e prosperar são um modo especial existente a quatro bilhões de anos de o Universo se organizar.

Como foi que a matéria num banho de energia, realizou pela primeira vez o feito da vida ninguém sabe, nenhuma molécula isolada é capaz de se reproduzir.

 

3.  A MATÉRIA E A VIDA

No Universo, a vida pode ser rara ou até singular, porém a matéria de que é feita é elementar! Com o transcorrer do tempo, uma quantidade cada vez maior de matéria inerte ganhou vida; minerais marinhos estão hoje incorporados em criaturas vivas, para proteção e apoio, sob a forma de conchas e ossos.
 

A vida começou a reutilizar materiais muito antes do aparecimento de seres humanos tecnológicos. As bactérias, por exemplo, juntaram-se e formaram protoctistas; estes por sua vez, puderam minerar e usar o cálcio, a sílica e o ferro existente nos mares do globo. Os protoctistas evoluíram para animais providos de conchas e ossos.
 

Individualmente, ou em conjunto, os animais transformaram materiais inerentes em túneis, ninhos e colméias.

 
A propensão a “construir” o mundo que nos cerca é antiga todavia, ainda hoje, influência o comportamento dos seres humanos, que  transformam o meio ambiente global usando óculos no interior de automóveis, ligados a celulares e terminais bancários por ondas de rádio, providos de eletricidade, canalização de água, esgoto e outros serviços públicos, estamos deixando de ser indivíduos e nos transformando em partes especializadas de um ser mais-que-humano global. Esse ser meta-humano está inextricavelmente ligado à biosfera da qual surgiu e que é muito mais antiga. Os metais e os plásticos representam os mais novos campos da matéria que vão “ganhando vida”.
 
 

  A MENTE NATUREZA
Todos os seres vivos, não apenas animais, mas também as plantas e os microorganismos são dotados de percepção. Para sobreviver, o ser orgânico tem que perceber: tem que procurar ou, pelo menos, reconhecer.

O ser vivo não precisa ser consciente para perceber. A maioria de nossas atividades cotidianas como respirar, digerir ou até dirigir um automóvel, é executada de maneira predominantemente ou totalmente inconsciente. Sendo assim, presume-se que as ações sensíveis das plantas e bactérias façam parte desse mesmo continuum de percepção e ação.
A mente talvez seja o resultado de interação celular.
 
 
 Aquilo que somos capazes de reconhecer e ver foi moldado por nossa evolução como criaturas sobreviventes.

A crença na importância da vida, portanto, pode não  ser um reflexo da realidade, mas uma fantasia evolutiva que leva, os que nela crêem a fazerem o que for necessário e a suportar qualquer fardo, para sobreviver.

Herdamos uma perspectiva comum, legada por nossos ancestrais. Por fim, como observaram Charles Pierce (1839-1914) e William James (1842-1910):

Talvez, não haja melhor medida da “verdade” do que aquilo que funciona aquilo que ajuda a sobreviver.”

A mente e o corpo, o perceber e o viver, são processos de auto-reflexão já presentes nas bactérias mais primitivas.

 

 

OUTRO FOCO PARA OS OBJETOS


RESÍDUOS ARCAICOS E ARQUÉTIPOS - objetos de poder

       Freud, observou que, muitas vezes, sonhamos com elementos que nada tem haver com a experiência pessoal; chamou tais formas de resíduos arcaicos, que aparentam ser traços primitivos representantes da herança comum do espírito humano.
 
Dando continuidade às idéias de Freud, Jung observou que, assim como nosso corpo é um detalhado museu de órgãos, cada qual com sua longa evolução histórica e filogenética, também a mente deve ter tido uma evolução análoga. Jung chamou de arquétipos (assim como anteriormente o fez Platão), o que Freud chamou de resíduos arcaicos.
 Segundo Jung, arquétipos não podem ser herdados geneticamente, o que se transmite de geração a geração, é a tendência da mente a formar representações simbólicas, padronizadas em seu sentido genérico, mas totalmente variável em detalhes; o arquétipo é na verdade, uma tendência sensitiva dotada de direção e intenção tão marcada como o impulso das aves para fazer seu ninho, ou das formigas para se organizar em colônias.Tanto os resíduos arcaicos como os arquétipos, são signos cuja transferência de energia se dá com os objetos conforme a vontade da pessoa que o possui.
 O primitivo, por ter um instinto mais aguçado, tem mais facilidade em ver esse “lado mágico” da vida. Jung em seu livro O Homem – à descoberta de sua alma, afirma que: “O primitivo alia a um mínimo de consciência de si, um máximo de compenetração com o objeto, o qual é capaz de exercer sobre ele a sua magia constringente.
Toda a magia e toda a religião primitiva se fundem sobre essas influências e interferências mágicas, que demandam do objeto e cuja origem só pode procurar-se em projeções de conteúdos inconscientes sobre o próprio objeto”.
 O objeto apresenta apenas uma parcela da projeção, o significado é subjetivo e o sujeito acaba fazendo parte da imago* do objeto. Assim, a vitalidade e a independência da imago, escapam à consciência de quem as projeta e, como observou Jung: “O objeto exterior consegue por pé na vida interior e nela participar.
 Eis como, por via inconsciente, um objeto exterior pode exercer uma ação psíquica imediata sobre o sujeito, visto a sua identidade com a imago (*IMAGO – Ela consiste numa imagem existente à margem de todas as percepções, e, contudo, alimentada por estas) o ter de certo modo introduzido no próprio seio das rodagens do organismo psíquica do indivíduo. Daí, o “poder mágico” que um objeto pode conter em relação a certos indivíduos”.
 Uma frase que estava na Exposição 500 anos de Brasil, na Oca relata bem essa idéia, dizia o seguinte:
"São os objetos mais poderosos que mais encarnam o princípio transformador. Não só se auto-transformam nos seres e forças invisíveis que tornam presentes, como também TRANSFORMAM OS HUMANOS QUE OS USAM. Ou então, OBJETOS XAMÂNICOS e os para uso de alucinógenos, estabelecem uma relação direta com forças e seres outros.
 É uma ARTE QUE SERVE MAIS PARA VER DO QUE PARA SER VISTA! Frequentemente, quanto mais poderosos são os objetos, mais condicionado é o olhar. Eem alguns casos, sua VISÃO é permitida só a algumas pessoas e excluída a todas as outras."
A filosofia platônica baseia-se no fato de que existe um belo em si e por si, um Bom, um Grande. A partir disso, defende a existência de uma alma imortal, e formula  a noção de idéia como essência existente em si – independente das coisas e do intelecto humano. O que é belo, é belo porque existe um Belo pleno que, explica todos os casos e graus de beleza.
A busca de uma condição incondicionada para o conhecimento, o encontro com o absoluto fundamento da verdade, é para Platão não o ponto de partida, mas a meta a ser alcançada. Todavia só se chega aí depois de atravessar todo o campo do possível; o absoluto, o não hipotético, habita além das últimas hipóteses.
Platão caracteriza as causas inteligíveis dos objetos físicos chamando-as de idéias ou formas, estas seriam incorpóreas e invisíveis. Seriam reais, eternas e sempre idênticas a si mesmas, escapando à corrosão do tempo, que torna perecíveis os objetos físicos. Merecem, por isso mesmo, a qualidade de “divinas”.
Perfeitas e imutáveis, as idéias constituem os modelos e paradigmas dos quais as coisas materiais seriam apenas cópias imperfeitas e transitórias; seriam tipos ideais a transcender o plano mutável dos objetos físicos.
Platão expõe a doutrina de que o intelecto pode aprender as idéias porque também ele é, como elas, incorpóreas. A alma humana, antes do nascimento – antes de prender-se ao corpo – teria contemplado o cortejo dos deuses. Encarnada, perde a possibilidade de contato direto com os arquétipos incorpóreos, mas diante de suas cópias (objetos sensíveis) pode ir gradativamente recuperando o conhecimento das idéias. Conhecer seria então lembrar, reconhecer. A hipótese da reminiscência vem, assim, sustentar a hipótese da existência do mundo das formas.
A doutrina platônica da imitação (mímesis) adquire caráter metafísico, decorrência do “distanciamento” entre o plano sensível e o inteligível. Os objetos físicos – múltiplos, concretos e perecíveis – aparecem como cópias imperfeitas dos arquétipos ideais, incorpóreos e perenes; o mundo sensível seria uma imitação do mundo inteligível, pois todo o Universo, seria resultado da ação de um divino artesão, que teria dado forma, pelo menos até certo ponto, a uma matéria-prima tomando por modelo as idéias eternas. A arte divina teria produzido as obras da Natureza e também as imagens dessas obras (como o reflexo do fogo numa parede).
O processo do conhecimento representa a progressiva passagem das sombras e imagens turvas ao luminoso universo das idéias. No cume do mundo das idéias, a superessência do Bem daria sustentação a todo o edifício das formas puras e incorpóreas.
 
PLATÃO E A ALEGORIA DA CAVERNA:
 
Através desta alegoria, Platão dramatiza a ascensão do conhecimento. Descreve um prisioneiro que contempla, no fundo de uma caverna, os reflexos de simulacros que – sem que ele possa ver – são transportados à frente de um fogo artificial. Como sempre viu essas projeções, toma-as por realidade e permanece iludido. A situação desmonta-se e inverte-se desde que o prisioneiro se liberta: reconhece o engano em que permanecera, descobre a “encenação” que até então o enganara e, depois de percorrer a rampa que conduz à saída da caverna, pode lá fora começar a contemplar a verdadeira realidade. Aos poucos, ele, que fora habituado à sombra, vai podendo olhar o mundo real: primeiro através de reflexos – como o do céu estrelado refletido na superfície das águas tranqüilas -, até finalmente ter condições para olhar diretamente o Sol, fonte de toda luz e de toda realidade.
Demonstra, que é muito tênue a fronteira entre o mundo visível e o mundo inteligível; e que a maioria das formas encontradas em nossa vida cotidiana apenas imitam a vida. Por isso, os objetos aqui, ganharão características inusitadas e inesperadas.
O despertar de uma consciência adormecida, a libertação de um ponto de vista o qual fomos condicionados no decorrer de nossas vidas, Voltaire é que estava certo quando dizia que: “A alma é um espírito puro, que recebeu no ventre da mãe todas as idéias metafísicas, e que, ao sair de lá, é obrigada a ir para a escola e aprender de novo tudo o que tão bem sabia e que não mais saberá”.
 

MUNDO DAS SOMBRAS OU DAS IDÉIAS?

imagem: James Jean
 
O transcorrer do tempo, as mudanças, descobertas evoluções e tecnologias; facilitaram e muito a vida do ser humano – quanto a isto não há dúvidas, porém, todo este excesso de informações e preocupações fizeram com que o homem, fosse se esquecendo de sua Mitologia Pessoal, de sua essência, afundando assim, cada vez mais, no “mundo das sombras”, deixando de lado o “mundo das idéias”, fato que veio acarretar várias conseqüências negativas para o próprio indivíduo; ele passa a viver numa realidade das superficialidades, na camada mais externa, onde tudo não passa de uma cópia imperfeita, sem perceber onde está entrando, o homem sente-se perdido, não entende a causa de seus problemas, e uma era que poderia ser fantástica pela diversidade e velocidade das evoluções, acaba se tornando a “Era das depressões”.

Nunca, em toda a história da humanidade, houve uma época com tantos casos de depressões registrados como ocorre atualmente. As pessoas têm tudo com mais facilidade e conforto mas, isto ao invés de lhes causar felicidade e prazer acaba trazendo sofrimentos e tristezas.

Parece que o homem atual tomou gosto por isso: sofrer, reclamar e acomodar-se...

 
 

 

 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

 PENSAMENTO SISTEMICO

 O pensamento sistêmico é uma forma de abordagem da realidade que surgiu no século XX, em contraposição ao pensamento "reducionista-mecanicista" herdado dos filósofos da Revolução Científica do século XVII, como Descartes, Bacon e Newton. O pensamento sistêmico não nega a racionalidade científica, mas acredita que ela não oferece parâmetros suficientes para o desenvolvimento humano, e por isso deve ser desenvolvida conjuntamente com a subjetividade das artes e das diversas tradições espirituais. É visto como componente do paradigma emergente, que tem como representantes cientistas, pesquisadores, filósofos e intelectuais de vários campos. Por definição, aliás, o pensamento sistêmico inclui a interdisciplinaridade. O pressuposto da simplicidade.


1. O pressuposto da simplicidade - a crença em que, separando-se o mundo complexo em partes, encontram-se elementos simples, em que é preciso separar as partes para entender o todo, ou seja, o pressuposto de que "o microscópico é simples". Daí decorrem, entre outras coisas, a atitude de análise e a busca de relações causais lineares.

O pressuposto da simplicidade tira o objeto de estudo dos seus contextos, prejudicando a compreensão das relações entre o objeto e o todo. Esse paradigma também leva à separação dos fenômenos: os físicos dos biológicos, estes dos psicológicos, dos culturais, etc., numa atitude de atomização científica. Faz parte dessa perspectiva também a atitude ou-ou, que, de acordo com a lógica, classifica os objetos, não permitindo que um mesmo objeto pertença a duas categorias diferentes. Além disso, esse pressuposto provoca a compartimentalização do saber, fragmentando o conhecimento em diferentes disciplinas científicas... Dessa forma criam-se os especialistas, aqueles que tem um acesso privilegiado ao conhecimento, estabelecendo-se uma hierarquia do saber.

O pressuposto da estabilidade

2. O pressuposto da estabilidade - a crença de que o mundo é estável, ou seja, em que o "mundo já é". Ligados a esse pressuposto estão a crença na determinação - com a consequente previsibilidade dos fenômenos - e a crença na reversibilidade - com a consequente controlabilidade dos fenômenos.

O pressuposto da estabilidade leva o cientista a estudar os fenômenos em laboratório, onde pode variar os fatores um de cada vez, exercendo controle sobre as outras variáveis. Assim, ele provoca a natureza para que explicite, sem ambiguidade, as leis a que está submetida, confirmando ou não suas hipóteses. Ao levar o fenômeno para laboratório, excluindo o contexto e a complexidade, focalizando apenas o fenômeno que estava acontecendo, ele exclui a sua história.

A idéia de "leis da natureza" é a mais fundamental da ciência moderna e tem uma conotação legalista, como se a natureza fosse obrigada a seguir leis... Possivelmente isso está ligado a idéias religiosas que concebem um legislador onipotente. Será que isso não seria uma tentativa de equiparar o conhecimento humano ao divino?

Dessa forma, principalmente a física concebe o mundo "que já é", e não em processo de ser, recorrendo a sistemas em estado de equilíbrio para estudo. Também por isso a física quântica quebrou velhos paradigmas...

Faz parte desse paradigma o pressuposto da previsibilidade: o que não é previsto com segurança é associado a um conhecimento imperfeito, o que leva a uma redução ainda maior do conhecimento por meio do pressuposto da simplicidade. Por conseguinte, a instabilidade de um sistema é visto como um desvio a corrigir. A idéia da controlabilidade dos fenômenos leva a uma interação do especialista na forma de uma interação instrutiva: a crença de que o comportamento do sistema será determinado pelas instruções que ele receber do ambiente e em que, portanto, poderá ser controlado e previsível.
 
pressuposto da objetividade
3. O pressuposto da objetividade - a crença em que "é possível conhecer objetivamente o mundo tal como ele é na realidade" e a exigência da objetividade como critério de cientificidade. Daí decorrem os esforços para colocar entre parênteses a subjetividade do cientista, para atingir o universo, ou versão única do conhecimento.

No pressuposto da objetividade o cientista posiciona-se "fora da natureza", em posição privilegiada, com uma visão abrangente, procurando discriminar o objetivo do ilusório (suas próprias opiniões ou subjetividade). Daí advém a crença no realismo do universo: o mundo e o que nele acontece é real e existe independente de quem o descreve. Com isso obtemos várias representações da realidade, que ajudaria a descobri-la. E o critério de certeza advém daquelas observações conjuntas e reproduzíveis, onde, coincidindo os registros de observações independentes, mais confiáveis e objetivas são as afirmações. A estatística encontra aí um bom campo de atuação.

O relatório impessoal e as normas de trabalho científico orientam uma linguagem impessoal, "como se a caneta fosse um instrumento para a manifestação de uma verdade anônima"... Na verdade, a linguagem impessoal visa a "mascarar" a linguagem de forma a dar uma impressão de ausência de um sujeito, de um pesquisador, onde uma afirmação pode tomar a forma impessoal para mascarar uma opinião pessoal...

Resumindo: a ciência tradicional procura simplificar o universo (dimensão da simplicidade) para conhecê-lo ou saber como funciona (dimensão da estabilidade), tal como ele é na realidade (dimensão da objetividade).

Isso levou a uma dificuldade tremenda em três áreas científicas, onde podemos classificar, de acordo com Vasconcellos (2003), a adoção dos paradigmas científicos em fácil, tranquilo e difícil:

Ciências
Físicas
Biológicas
Humanas
simplicidade
tranquilo
Difícil
difícil
estabilidade
tranquilo
especialmente difícil
difícil
objetividade
tranquilo
Tranqüilo
especialmente difícil

O pensamento sistêmico não nega o paradigma científico. Pelo contrário: ele o abarca, colocando-o em confronto com os paradigmas opostos e propondo uma ampliação dos paradigmas existentes.

O Pensamento sistêmico e a psicologia analítica de Carl Gustav Jung

Muitas críticas à teoria junguiana coincidem com a dificuldade em se aceitar a psicologia como ciência devido aos pressupostos apresentados. O pensamento sistêmico propõe, em contraposição, os paradigmas da complexidade, da instabilidade e da intersubjetividade, que se integram incrivelmente com a psicologia analítica.

O pressuposto da complexidade reconhece que a simplificação obscurece as inter-relações dos fenômenos do universo e de que é imprescindível ver e lidar com a complexidade do mundo em todos os seus níveis. Um exemplo de uma descrição baseada nesse pressuposto é a Sincronicidade que prevê outras relações, que não são causais, para os eventos do universo. Além disso, a psicologia analítica lida de modo sistêmico com a psique, daí seu homônimo: psicologia complexa, ou profunda.

O pressuposto da instabilidade reconhece que o mundo está em processo de tornar-se, advindo daí a consideração da indeterminação, com a consequente imprevisibilidade, irreversibilidade e incontrolabilidade dos fenômenos. A abordagem orgânica, a homeostase psíquica, e a noção de inconsciente (o que inclui a freudiana), com os seus componentes arquetípicos e complexos são exemplos de abordagem sistêmica da psicologia analítica.

O pressuposto da intersubjetividade reconhece que não existe uma realidade independente de um observador e que o conhecimento científico é uma construção social, em espaços consensuais, por diferentes sujeitos/observadores. Então o cientista trabalha com múltiplas versões da realidade, em diferentes domínios linguísticos de explicações. Os tipos psicológicos junguianos são o que há de mais inovador nesse sentido, tendo inclusive reconhecimento científico tradicional na detecção dos tipos de personalidade


 

Autismo pode ser fruto da evolução biológica do cérebro humano, dizem cientistas Transtorno começa a ser reavaliado como um possível produto da seleção de habilidades cognitivas

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