O uso de cabelos em diferentes culturas
Os cabelos são da maior
importância para os mais diferentes povos, em diferentes regiões e nas
diferentes épocas. Têm a mesma origem embrionária que as unhas e, como elas,
sendo formados por células queratinizadas, não se decompõem facilmente. O fato
de continuarem a crescer mesmo depois da morte do indivíduo favorece o
surgimento de fantasias de mortos que se levantam do túmulo para atacar os
vivos. Muitos povos acreditam que os
cabelos e as unhas continuam relacionados ao indivíduo mesmo depois de
cortados; por isso, são considerados tabu, não devendo ser cortados nem jogados
fora. Na quimbanda podem ser utilizados para a realização de atos de bruxaria.
Associada à idéia de cabelos =
virilidade, vem a do corte dos cabelos como emasculação, mutilação, humilhação.
Isso é encontrado no mito bíblico de Sansão, na China e entre alguns índios da
América do Norte. Em todo o mundo a entrada para o estado monástico inclui o
corte dos cabelos como sinônimo de renúncia e sacrifício. Uma variante é o uso
da tonsura pelos clérigos. No caso de criminosos, cabelos cortados rente marcam
a humilhação, publicam o delito e expõem socialmente a pessoa. Criminosos e
loucos tinham os cabelos raspados quando recolhidos às instituições, como forma
de tirar-lhes a identidade. Para as pessoas submetidas à
quimioterapia, a perda dos cabelos é muito difícil de ser aceita; à
conscientização da perda da vitalidade soma-se a sensação de humilhação e
exposição.
O corte e a disposição da
cabeleira demarcam a personalidade, a função social ou uma mudança no tipo de
vida. É também algo civilizatório: cabelos e crianças não podem crescer
desordenadamente, precisam ser cortados para que ganhem forma.
Para muitos povos, o primeiro
corte dos cabelos é ocasião de importante cerimônia para proteger contra os
maus espíritos. Entre os incas, o primeiro corte de um príncipe herdeiro
ocorria quando ele completava dois anos. O futuro rei recebia seu nome
definitivo e se tornava uma pessoa; perdia os cabelos ligados à vida pré-natal,
dissociando sua força vital da de sua mãe, o que era confirmado pelo desmame. O
corte dos cabelos simbolizava a cesura do nascimento psíquico, o rompimento do
estado simbiótico da primeira infância, permitindo que se alcançasse a
individuação e uma identidade própria.
Nossos índios do Xingu raspam os
pêlos do corpo, incluindo as sobrancelhas, desde muito cedo, para não parecerem
macacos, mas os cabelos são considerados sensuais. Quando ocorre a morte de
alguém muito próximo, as mulheres os cortam, expressando assim como essa perda
as mutilou. Entre os carajás, a duração do luto será determinada pelo
crescimento dos cabelos.
Muito freqüentemente encontramos
a fantasia de lindos cabelos como idênticos à capacidade de atração, situação na qual quem atrai
detém o poder, já que faz aflorar o desejo do outro. A idéia de provocação
sexual ligada à cabeleira feminina– desejo e sensualidade tomados como pecado–
está na origem, na tradição cristã, do fato de as mulheres não poderem entrar
na igreja de cabeça descoberta e, na tradição muçulmana, de não poderem se
apresentar assim em público; entre os judeus ortodoxos, a partir do casamento
elas não se apresentam com os cabelos à mostra, passando a usar perucas ao
sair. Também entre eles, para os meninos, os cachos laterais (o peiot)
são mantidos sem nenhum corte, assim como, posteriormente, a barba.
Cabelos desgrenhados estão
associados ao luto, como expressão de dor e desespero, e, nos rituais das lojas
das sociedades secretas, à não submissão às regras sociais. Entre os hippies, os
cabelos desalinhados eram um sinal de liberdade e de não aceitação dos valores
vigentes. Cabelos black power foram utilizados como afirmação da negritude; já o
tererê,
enfeite colorido entremeado aos cabelos, tem uma conotação de retorno às
origens.
CABELOS E CONTEXTO: Vivemos numa sociedade que
privilegia a juventude como sinal de potência e vitalidade; o envelhecimento é
visto como castração e, dessa forma, não há possibilidade de considerar o
amadurecimento e a sabedoria– alcançados com o aprender com a experiência– como algo bom. Na cultura do
rápido e descartável, não há tempo para assimilação; procura-se a todo custo
destruir o mundo mental responsável pela percepção e pela consciência da
finitude.
A palavra têmpora está associada a tempo e indica a região da cabeça onde
geralmente aparecem os primeiros cabelos brancos, que mostram que o tempo
passou; sinal de aproximação da morte, precisam ser rapidamente pintados para
ocultar este horror: Somos mortais! Quando olhamos à nossa volta,
damo-nos conta de uma quantidade imensa de produtos para cabelos, de tipos de
escovas, pentes e técnicas, conforme o que se deseje obter. O número de pessoas
que se submete a isso tudo não é nada pequeno e o tempo despendido, enorme,
medida da importância que os cabelos têm para nossa economia psíquica.
Dentro desse quadro, seja numa
situação narcísica de exagerado culto à vaidade, seja de cuidados com a vida,
os cabelos têm posição de destaque. Ao entrar num salão de beleza,
algumas pessoas estão curvadas, cabisbaixas, silentes, deprimidas. Conforme
seus cabelos vão sendo cortados, a postura vai se alterando: levantam o corpo e
a cabeça, sorriem para a imagem no espelho e para a cabeleireira. Os cabelos,
tendo crescido, perderam o formato; com isso a pessoa sente que perdeu a
beleza, a identidade. Com o novo corte, restabelece-se o contorno que marca os
limites, restaura-se a pele psíquica, ela se recupera, se re-encontra.
Entre as jovens, geralmente os
cabelos são mantidos longos, tratados, coloridos; podemos pensar em cabelos
como substitutos do pênis. Observamos, no entanto, que quando se casam, e
principalmente quando têm filhos, elas os cortam, abrindo mão desse poder, dessa representação de
onipotência e bissexualidade. Ao se tornarem capazes de serem mulheres e mães,
com limitações e possibilidades reais, os longos cabelos perdem o sentido,
passando a ser vistos como dando trabalho demais.
CABELOS E A PSICANÁLISE: Freud (1923/1976) nos ensina que
o ego resulta das sensações da superfície do corpo– portanto, da pele–, como
uma diferenciação do id no contato com a realidade, representando as
superfícies do aparelho mental.
A partir das sensações corporais
que o bebê vivencia (através dos contatos físicos e psíquicos que tem
principalmente com a mãe), vai se estabelecendo uma primeira noção de pele,
algo que envolve e demarca um limite do corpo e do eu, que contém as partes do
corpo e da personalidade e que permite que as trocas aconteçam (Bick,
1967/1991). Anzieu (1985/1988, p. 26) aponta: os bebês mamíferos se agarram
aos pêlos de suas mães como forma de alcançar segurança física e psíquica [
]. É agarrando-se ao seio, mãos,
corpo e roupas da mãe que [o bebê] desencadearia como resposta condutas
atribuídas a um utópico instinto maternal. A catástrofe que persegue o
psiquismo nascente do bebê humano seria a do separar-se e depois– assinala mais
tarde Bion, de quem retomo a expressão– isso o mergulha em um terror sem nome.
Ele nos remete à proposição de
Bowlby (1958), da existência de uma pulsão de apego; esta explicaria a
observação dos etologistas de que os bebês, tanto de aves como de mamíferos, se
desesperam com a ausência da mãe tanto quanto os bebês humanos, e de como isso
não está ligado à alimentação ou à oralidade, pois os filhotes apenas ficam
junto delas ou as seguem. Essa pulsão tem por finalidade proteger os filhotes
de predadores, mantendo a mãe a uma distância segura, e é estendida aos machos
que protegem o grupo.
Anzieu fala também das idéias
desenvolvidas por Hermamm (1930), de como os filhotes de mamíferos se agarram
aos pêlos dos pais e de como o desaparecimento dos pêlos no corpo humano tornou
aleatória a satisfação dessa pulsão e transformou as áreas cobertas de pêlos
nas zonas erógenas favoritas da pulsão sexual. Em decorrência, os cabelos foram
erotizados, considerados belos e atraentes.
Lembra ainda como Harlow (1958),
estudando variáveis da relação mãe-bebê, realizou experimentos com bebês
macacos e suas reações a mães de pano e mães de arame, observando como eles sempre preferiam as primeiras como objeto de
apego. O reconforto alcançado com o contato com a maciez de uma pele foi sempre
maior do que com aleitamento, calor físico ou acalanto. Anzieu propõe também um
desejo tanto de incorporar como de ser incorporado pela pele, anterior à
incorporação oral, e, supomos, possivelmente fetal.
De nossas origens como primatas
vem a necessidade de agarrar-se aos pêlos para não cair, mantida como reflexo neonatal.
Podemos dizer que os cabelos, dada a nossa perda dos pêlos, oferecem suporte
anatômico para isso, atendendo a essa necessidade. Estamos, portanto, diante de
aspectos muito primitivos, ligados à nossa herança filogenética, a um
agarrar-se aos pêlos-cabelos para não correr risco de queda.
Na posição autista-contígua
(Ogden, 1986/1989), a criança tem uma captação sensorial, concreta, procurando
aderir à superfície do objeto para alcançar a sensação de segurança; as defesas
são por identificação adesiva (Bick, 1967/1991), e a vivências de
bidimensionalidade (Meltzer, 1975/1979); posteriormente, com o desenvolvimento
da noção de pele-superfície para a de pele-bolsa, que contém as partes tanto do
corpo como da mente (Anzieu, 1985/1988), surgirá a noção da tridimensionalidade
e conseqüentemente a possibilidade do uso de defesas por identificação
projetiva (Klein, 1946/1982).
Francis Tustin (1990) nos lembra
que o recém-nascido provavelmente passa por estados em que estão presentes
terrores atávicos, associados ao medo inato de animais predadores; eles
asseguraram a sobrevivência da espécie, e, embora rudimentares, continuam
presentes. Esses terrores são atenuados por uma mãe que, no estado de preocupação materna primária (Winnicott, 1958/1978), envolve
o bebê num continente que amortece os impactos. Quando isso não ocorre, o bebê
fica exposto a esses impactos e é obrigado a reagir a eles numa tentativa de se
proteger, ficando preso a um universo de sensações táteis de superfícies; isso
é conseguido através do desenvolvimento de defesas autistas. Sendo este um
estado protomental, não podemos falar em fantasias, mas talvez em sensações
físicas de terror.
Se relacionarmos as sensações
terroríficas de um cair sem fim à nossa herança como primatas, teremos de pensar nos padrões inatos esperados pelo bebê e como nesse contexto
pêlos-cabelos têm a função de proteger a vida e diminuir a ansiedade. Ogden
(1986/1989, p. 151) esclarece essas questões:
Para Klein, o objeto interno tem
sua origem nas pré-concepções herdadas associadas às pulsões. Não se herda a pré-concepção
mental do objeto, mas a estrutura para a representação, e se dá forma à
representação mental quando o bebê encontra os objetos concretos. [
] O bebê não prevê o seio
concreto no sentido de ter uma imagem mental dele antes de encontrá-lo; por
outro lado, ele o reconhece quando o encontra porque é parte de suaordem
interna biologicamente estruturada que estava silenciosamente disponível para
lhe dar forma [tradução livre da autora].
Se tomarmos seio como abarcando todas as funções
maternas, tanto as concretas como a capacidade de continência e de sonhar (Bion, 1961/1991), o cabelo
também estará aí incluído.
Segundo a hipótese que formulo,
uma das pré-concepções que nossa espécie desenvolveu é que existe algo– pêlos-cabelos– que nos protegerá de cair; assim, a função de defesa
biológica dos cabelos é estendida às nossas angústias mais precoces. A partir disso, sua
importância fará parte do imaginário humano, aparecendo nos hábitos e costumes
de cada povo, em seus contos e mitos, e conforme a história de cada indivíduo.
Mas o que pode ocorrer com
respeito a cabelos quando mãe e bebê se re-encontram depois da separação
imposta pelo parto? Quando uma jovem mãe amamenta ou
afaga seu filho, muito provavelmente seus cabelos caem sobre o bebê. Temos uma
conjugação: o reflexo de preensão, que está filogeneticamente relacionado à
sobrevivência e à proteção contra as ansiedades de um cair sem fim, e a importância que os cabelos
têm para o imaginário materno. Que objeto é oferecido ao bebê pelas fantasias
inconscientes da mãe no jogo de projeções/introjeções que essa relação
necessariamente contém e que se acasala com as pré-concepções existentes?
Num trabalho de anos de observação, Souza-Dias
verificou que bebês cujas mães tentaram desesperadamente abortar apresentam
intensa reação a estranhos, quase nenhuma capacidade para tolerar frustrações e
se agarram aos cabelos delas com um ódio intenso (comunicação pessoal, março de
2006). Fazemos a suposição de que expressam sua luta desesperada para
sobreviver e um ódio a esses cabelos-mãe que não oferecem sustentação; estes tentaram
lançá-los no abismo da morte, e, ainda assim, são tudo o que têm para se segurar....