quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O OVO
 

 
Dentro do OVO os 2 princípios da MATÉRIA-PRIMA  - um SOLAR, quente e masculino, conhecido como enxofre, e outro LUNAS, frio feminino, conhecido como mercúrio, atuam um sobre o outro.
 
 


Então, como escreveu Raimundo Flamel:
“...estes dois, digo, ao colocá-los juntos no recipiente do sepulcro, se mordem de uma forma cruel e, pelo seu forte veneno e terrível ira, nunca se soltam a partir do momento em que se agarraram (se o frio não os impede) até que dois , como conseqüência de suas babas venenosas e dos seus ataques mortais, terminam completamente ensangüentados e acabam se matando e cozinhando-se no seu próprio veneno que, depois de sua morte, os converte em ÁGUA VIVA E ETERNA: antes disso, perdem com a corrupção e a putrefação, as suas formas naturais e primitivas, para passar depois de assumir uma ÚNICA FORMA NOVA mais nova e melhor.”
 

 
 Dessa forma, a morte – que é a separação, lhe segue um longo processo de decadência que dura até tudo apodrecer e os contrários  se dissolverem no NIGREDO LIQUIDO. Essa escuridão, que supera todas as outras escuridões, este <<NEGRUME DOS NEGRUMES>> é o primeiro signo inequívoco de que se está no bom caminho; daí o aforismo  dos alquimistas: “ Não há geração, sem corrupção.”
 
 
 A etapa do NEGRUME acaba quando a superfície adquire um aspecto estrelado, compatível a do céu noturno, que anuncia aos pastores o surgimento do menino de Belém. Assim, o primeiro grau da perfeição, se aproxima ao seu fim quando, a partir da destruição mútua dos opostos, despontar a HUMILDADE METÁLICA e VOLÁTIL que é o MERCÚRIO DOS SÁBIOS.
NIGREDO - A palavra está associada à cor negra, ao chumbo, a Saturno, ao que é pesado, difícil e que causa sofrimento. O primeiro passo do trabalho alquímico é, portanto, travar conhecimento com nosso lado sombrio. Faz parte do processo enfrentar raivas, invejas e ódios ocultos, reconhecer- se na cobiça (mesmo a espiritual) e na competição. Esse enfretamento com nosso aspecto mais difícil não raro causa depressão, melancolia e abandono de ação. Passamos também a julgar o mundo como um lugar triste, sem esperança, e as pessoas como não confiáveis. O primeiro passo rumo ao alto, portanto, é um mergulho para baixo para conhecer como realmente somos, com nossas emoções negativas, fraquezas e limites. Nessa fase, conteúdos do inconsciente geralmente vêm à tona, expressos como imagens simbólicas vistas em sonhos. Na alquimia clássica, essa emersão do inconsciente era causada pelos gases tóxicos emitidos pela manipulação do chumbo - alguns alquimistas simplesmente enlouqueciam. Apesar de difícil, nenhum trabalho alquímico pode ser feito sem atravessar os momentos de incubação e introversão. É aconselhável, porém, que essa descida às sombras pessoais seja feita sob as asas de um anjo: um terapeuta, um amigo mais sábio ou um conselheiro espiritual. A ultrapassagem da fase acontece quando se decide internamente não se deixar mais dominar por nossos aspectos mais escuros. Saber que eles fazem parte de nós, um reconhecimento que nos torna, inclusive, mais humanos, mas que é possível contrabalançá-los ao entrar em contato com nossa natureza mais luminosa. Começamos a compreender que somos tanto chumbo quanto ouro, e não apenas chumbo. Quando isso acontece, nós já estamos no começo da próxima fase, que antevê o abandono desse estado doloroso e o início de um tempo mais ameno.
No final desse processo, o principio volátil MÉRCURIO voa pelo ar alquímico, do microcosmos do ovo filosofal, no <<ventre do vento>> , recebendo as influências celestiais e purificadoras lá de cima.
Volta a cair, SUBLIMADO, sobre a Nova Terra que finalmente emerge.
Ao ir lentamente aumentando a intensidade do fogo exterior, as partes secas vão ganhando terreno às úmidas até que, o Continente aparecido coagula e se desseca completamente. Enquanto isso, sucede, surge um incontável números de BELAS CORES que correspondem a etapa conhecida como: a cauda do pavão real. Depois disso surge a BRANCURA, o albedo.
Quando alcança a brancura, diz-se que o indivíduo já tem força suficiente para resistir ao calor do fogo e só tem que dar um passo a mais para que o REI VERMELHO ou ENXOFRE DOS SÁBIOS saia do ventre de sua mãe e irmã, Ísis ou Mercúrio, é a rosa alva, a rosa branca.
 
 
 
 


 
 
ALQUIMIA
 
 
 
O desesperançado estudioso pode descobrir nas pinturas alquímicas, um caminho repleto de maravilhas, para penetrar no coração da matéria. Isto porque, os alquimistas, através de suas imagens, expressaram de uma forma muito bela, coisas das quais, nunca chegaram a escrever...
A alquimia não pode ser traduzida a um único sistema de pensamento, nem a uma única interpretação simbólica.
 


 
A GRANDE OBRA: A primeira tarefa do discípulo consiste na busca e descoberta da MATÉRIA-PRIMA.
"O seu nome tradicional: pedra dos filósofos nos dá uma IDÉIA bastante clara dessa substância, servindo-nos para começar a identificá-la. É realmente uma PEDRA, porque, ao ser extraída das minas, apresenta as mesmas características exteriores que o resto dos minerais...” (Fulcanelli, Les Demeures Philosophales)
Esta PEDRA DOS FILÓSOFOS, ou <<sujeito>> desta arte, não deve ser confundida com a Pedra Filosofal que, após ser transformada e aperfeiçoada pela ARTE, alcança a sua perfeição final e, por conseguinte, A PROPRIEDADE DA TRANSMUTAÇÃO. 
Na Literatura Alquímica, diz-se que essa MATÉRIA tem um corpo imperfeito, uma alma inconstante e uma cor penetrante, e que contém um mercúrio transparente, volátil e móvil. Esconde no seu coração o ouro dos filósofos e o mercúrio dos sábios.
Recebeu um milhão de nomes, mas nunca foi revelada sua verdadeira natureza e, a maior dificuldade encontrada na hora de interpretar os textos alquímicos, consiste em identificar esta matéria.
A OBRA é preparada e levada a cabo, utilizando-se esta ÚNICA SUBSTANCIA que, após ser identificada, deve ser obtida. Para isso, é necessário viajar até o LUGAR DA MINA e OBTER O SUJEITO NO SEU ESTADO BRUTO.
Deve ser efetuada, sob os signos de Áries, Touro ou Gêmeos (a época mais propícia para começar é a de ÁRIES, cujo símbolo celeste simboliza, na linguagem esotérica ou críptica, ao nome da MATÉRIA-PRIMA).  
O SIGNO DE ÁRIES associa-se com o nome da MATÉRIA-PRIMA ou SUJEITO DA OBRA.
 
O lobo-cinzento (ANTIMÔNIO) devorando Mercúrio indica que o sujeito deve se purificar, da mesma forma que o antimônio purifica o ouro. 
Em sânscrito, a explicação das palavras se dá freqüentemente através de palavras sinônimas ou mesmo através de um jogo de palavras. O primeiro signo do zodíaco sânscrito era chamado de Mecha, cujo sinônimo é aja, que significa “que não tem nascimento”.
O que explicaria as atribuições de Parabrama (Brama – o Eterno) ao signo Mecha (nosso Áries).



Eis, portanto, a fonte de onde provieram todas as manifestações do espírito, assim como da matéria.
Reportando-se ao fim do zodíaco e à noção do eterno recomeço  pode-se conceber que, saindo-se do absoluto simbolizado pelo oceano de Peixes, o raio de luz destinado a criar o relativo, se manifestará em Áries em correspondência com o fogo-éter dos gregos e será a força motora do mundo.


Por outro lado, sabe-se que na concepção antiga a divisão do cosmos era feita em esferas, e que o fluxo da vida nascia “sob o reino” do carneiro, sendo representado pela constelação de Eridano, símbolo planetário de um curso de água, o Eridano.
Vale dizer que nas astrologias sucessivas as divindades planetárias escolhidas para governar Áries tinham sempre algo em comum com a divindade oriental Kama, ou seja, o desejo (daquilo que está por vir) expresso num plano astral.



FASES DO PROCESSO:

Como preliminar à OBRA, o sujeito deve ser purificado, liberado dos DETRITOS. Ditas técnicas requerem muita PACIENCIA, INGÊNIO e ESFORÇO. O GRANDE OBJETIVO DA VIDA seria desvendar e identificar esta MATÉRIA.

 


 
PREPARAÇÃO DO FOGO SECRETO (Ignis Innaturalis) – Primeiro Agente: Os alquimistas o definem como:
 


“A ÁGUA SECA QUE NÃO MOLHA AS MÃOS E COMO O FOGO QUE ARDE SEM CHAMAS.”
–acredita-se que essa substância seja o SAL, preparado a partir do cremor tártaro, mediante um processo que requer grande perícia e um perfeito conhecimento de química.
-o processo incluí a utilização do ORVALHO PRIMAVERIL, que se recolhe de uma forma ingeniosa e poética e que a continuação é destilado.
- Após preparados a MATÉRIA-PRIMA e o PRIMEIRO-AGENTE DA OBRA, os preliminares se dão por finalizados...
MISTURANDO A MATÉRIA
 
 
–a MATÉRIA-PRIMA é introdizida num recipiente (morteiro) de ÁGATA (ou alguma outra substãncia de grande dureza)
- ela é então: AMASSADA COM O MAÇO, MISTURADA COM O FOGO SECRETO e  HUMEDECIDA COM O ORVALHO.
-A <<mistura>> resultante é introduzida a continuação num recipiente hermeticamente fechado ou OVO FILOSOFAL, que se coloca no interior do FOGO DE ATENOR, o forno dos filósofos.
 
 
 
 



 
 

 
 

 

domingo, 14 de outubro de 2012

não existe nada de bom, a não ser que a gente o faça!

 
 PARAÍSO PERDIDO
 
 


 
Sempre digo que, o maior pecado mortal é o sofrimento. Acho uma ingratidão afinal, estamos aqui para sermos felizes...
Naturalmente, cada um tem a representação pessoal do que seria a felicidade. Contudo, surpreendentemente, esses quadros mentais são muito semelhantes para a grande maioria das pessoas: saúde, amor, bem estar material, contentamento...
Em parte, os símbolos dos nossos desejos são adquiridos na infância, mas podem também ser adquiridos por influência dos outros e são reforçados por propagandas e filmes.
PARECE-NOS QUE SÓ OS OUTROS TEM UMA VIDA FELIZ, NÓS MESMOS NÃO. É necessário que o pessimismo intransigente abra espaço.
Para vivenciarmos inteiramente nossa humanidade, devemos resistir à tentação de delegar a alguém ou algo a responsabilidade por nossas frustrações.
Com concepções enrijecidas, nunca poderemos descobrir o MILAGRE DA VIDA, somos freados por nossos pensamentos e padrões mentais: a mente nos engana, a partir de coisas que os olhos vêem. Precisamos sempre, de novo, ultrapassar os limites de nossos conceitos e crenção.
Procuramos pelo PARAÍSO PERDIDO, por um lugar onde tudo esteja em ordem, onde todos sejam saudáveis, felizes e satisfeitos. Este lugar, todavia, parece sempre estar situado no passado ou no futuro, NUNCA no presente.
. As pessoas tendem a se apegar aos PROBLEMAS CRIADOS PELA MENTE.
Expectativas e esperanças geram um bloqueio no plano da energia. Quando não estamos presos a determinados resultados, a energia está livre para fluir em todas as direções...
"É necessário que o pessimismo intransigente ceda espaço:" ( George Barcat)
Além do pessimismo,  é necessário eliminar a PREGUIÇA  (todos nós conhecemos sua voz tentadora) e também, o MEDO, este é a emoção que mais influência a vida hoje em dia. 
 Temos medo de tudo: queremos mais energia, mas temos medo de sua força; queremos amor, mas temos medo de conquistá-lo ou perdê-lo. Precisamos aceitá-lo e controlá-lo pois, conhecendo nossos medos podemos nos tornar amigo deles.
Sentimentos são energia e cada energia tem sua própria vibração, precisamos estar em contato com nossos sentimentos para fazê-los fluir...
Enquanto o eu não estiver conectado com os próprios sentimentos é impossível sintonizar com os sentimentos dos outros.
Precisamos, sempre DE NOVO, ultrapassar os limites de nossos conceitos, crenças, condicionamentos e programações.
Por meio da sensibilização da consciência torna-se possível o acesso a  novos planos da realidade e também a expanção do ambiente em que se vive. O objetivo, não é eliminar os problemas com pensamentos positivos mas sim, aceitar os fatos, isso leva à claridade, à beleza e a paz.
 Nada existe, a não ser que alguém o faça!

A DECISÃO DE FAZER ALGO QUE, NO FINAL,  NÃO SE SABE NO QUE VAI DAR E COMO VAI SER REFLETIDA NA VIDA FUTURA, É UM PROCESSO DE APRENDIZADO MUITO IMPORTANTE.
Existe uma força que nos carrega e nos guia a todo momento. Entretanto, raramente temos consciência dessa energia. Ela FLUI em tudo, desde as microscópias células, às galaxias, em tudo; em cada pensamento e sentimento.
 
 
 
 ENERGIA VITAL: A enegia vital é tão presente na Natureza quanto o ar que respiramos. Se tivéssemos que lembrar de respirar em pouco tempo, estaríamos todos mortos.
 
 
 ENERGIA DOS DESEJOS:
- Concentre sua atenção em um desejo especialmente forte - escolha aquilo que primeiro surgir no inconsciente.
- Sempre respire fundo, percebendo o ritmo da respiração.
- Imagine que o ar é a energia vital que flui através de você.
- Sinta o ar que entra e sai...Qual sua cor?
- Mergulhe mais e mais na sensação de fluir...
- Se surgirem pensamentos e recordações dê espaço para eles sem se apegar, deixe que fluam junto na beira de sua consciência.
- Faça algumas perguntas ao seu EU ÍNTIMO e escute as respostas.
Responda:
1- Qual foi a ultíma vez que dedicou a si mesmo, uma hora de atenção?
2- O que faria da vida se esse desejo se concretizasse agora?
3- O que eu teria ,que não tinha antes?
4- O que sentiria, que não sentia antes?
5- O que mudará em minha vida se esse desejo se concretizar?
6- O que é o pior que pode acontecer?
REALIZE AGORA O DESEJO EM SUA IMAGINAÇÃO: imagine o maior número possível de detalhes até ter a sensação de que o sonho foi totalmente realizado.
7- O que sinto neste momento?
 
 
 

 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012


MITOLOGIA PESSOAL

 

 


 
       Os mitos são relatos fantásticos que encontram lugar fora do tempo definido, histórias de caráter simbólico, dotadas de lógica própria, criadas e preservadas pela tradição oral. Eles possuem o poder de nos enredar em suas tramas alegóricas, estimulando o inconsciente coletivo e ajudando a construir a mitologia pessoal.

O termo grego müthos, significa fábula ou relato e deriva do verbo muthéin, o qual expressa o ato de inventar histórias. Etimologicamente, está ligado a mithos, que se traduz por fio de teia ou filamento.

Uma crença mais antiga que nossa própria consciência de sua existência, fazem parte do âmago do Universo e conseqüentemente de nossa própria essência; tudo está interligado, todo o esquema já está montado, são como os finíssimos fios que fazem parte da trama de uma teia de aranha. É preciso aprender a ler os “sinais” que nos foram deixados e perduraram durante os séculos, os sinais que não foram esquecidos, os sinais da Natureza.

O mitológico Campbell (1904-1987) em sua obra As máscaras de Deus, cita a dança ritualística como forma de padrões arcaicos de comportamento, igualmente encontrada entre os macacos, os pássaros, os peixes e até mesmo entre as abelhas. E questiona se o homem como os demais seres da criação, não possuiria alguma tendência inata para reagir de forma racial, estritamente padronizada, a certos sinais do meio ou de sua própria espécie.

         Com o transcorrer do tempo, o homem foi cada vez mais  se esquecendo desse seu lado mitológico, desse seu lado mágico; condenando-se assim ao “mundo das sombras”. É preciso enxergar além, abrir-se para o “mundo das idéias”, crer no aparentemente inusitado; como observaram Bergier e Pawels em seu livro O Despertar dos Mágicos: “Esquadrinhar a história invisível é um exercício muito são para o espírito. Desembaraçamo-nos da repugnância pelo inverossímil que é natural, mas que muitas vezes paralisou o conhecimento.” 

         O fantástico virou sinônimo de satírico, algo impossível, coisa de doido, talvez, para camuflar seus poderes... Pois, a descoberta da mitologia pessoal, essa libertação do “mundo das sombras”, a leitura e uso dos símbolos e signos, acarretam um conhecimento superior temido por muitos.

         Muito desse antigo conhecimento perdurou disfarçando sua importância através das histórias infantis: O encanto, a mágica, o valor simbólico e a importância dos objetos, estão camuflados em simples brincadeira de criança. Isso porque em determinada época da história, com o advento do catolicismo, tais crenças foram condenadas com pagãs e somente perduraram por séculos, exatamente por esse seu disfarce, por terem entrado para o “Maravilhoso Universo Infantil”, onde tudo é possível e a censura inexistente.

Também o estudo do Universo onírico é de grande importância tratando-se deste assunto, Freud (1856-1939) e Jung (1875-1961) detiveram-se amplamente sobre este assunto. Freud observou que, muitas vezes, sonhamos com elementos que nada tem haver com a experiência pessoal; chamou tais formas de resíduos arcaicos, que aparentam ser traços primitivos representantes da herança comum do espírito humano. Dando continuidade às idéias de Freud, Jung observou que, assim como nosso corpo é um detalhado museu de órgãos, cada qual com sua longa evolução histórica e filogenética, também a mente deve ter tido uma evolução análoga. Jung chamou de arquétipos (assim como anteriormente o fez Platão), o que Freud chamou de resíduos arcaicos.

Segundo Jung, arquétipos não podem ser herdados geneticamente. O que se transmite de geração a geração, é a capacidade da mente a formar representações simbólicas, padronizadas em seu sentido genérico, mas totalmente variável em detalhes; o arquétipo é na verdade, uma tendência sensitiva dotada de direção e intenção tão marcada como o impulso das aves para fazer seu ninho, ou das formigas para se organizar em colônias.

Tanto os resíduos arcaicos como os arquétipos, são signos cuja transferência de energia se dá com os objetos conforme a vontade da pessoa que o possui. O primitivo, por ter um instinto mais aguçado, tem mais facilidade em ver esse “lado mágico” da vida. Jung em seu livro O Homem – à descoberta de sua alma, afirma que: “O primitivo alia a um mínimo de consciência de si, um máximo de compenetração com o objeto, o qual é capaz de exercer sobre ele a sua magia constringente. Toda a magia e toda a religião primitiva se fundem sobre essas influências e interferências mágicas, que demandam do objeto e cuja origem só pode procurar-se em projeções de conteúdos inconscientes sobre o próprio objeto”. O objeto apresenta apenas uma parcela da projeção, o significado é subjetivo e o sujeito acaba fazendo parte da imago* deste. Assim, a vitalidade e a independência da imago, escapam à consciência de quem as projeta e, como observou Jung: “O objeto exterior consegue por pé na vida interior e nela participar. Eis como, por via inconsciente, um objeto exterior pode exercer uma ação psíquica imediata sobre o sujeito, visto a sua identidade com a imago o ter de certo modo introduzido no próprio seio das rodagens do organismo psíquica do indivíduo. Daí,o “poder mágico” que um objeto pode conter em relação a certos indivíduos”.
 
 * IMAGO
Imago, do latim imagem, mito, significa a representação de uma ideia, a correlação entre um objeto e o seu significado para a mente de cada indivíduo.
 Em botânica, significa a fase da vida da borboleta que se inicia assim que ela abandona a forma de pulpa. É a borboleta jovem, que evoluiu de uma larva rastejante e se transforma em um complexo e esplêndido animal voador.
É uma belíssima demonstração de evolução.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

ESTUDO DO MITO

Há mais de meio século, estudiosos começaram a explorar o mito sob uma perspectiva diferente da até então em voga . Ao invés interpretá-lo na acepção usual do termo, como “fábula”, “ïnvenção”, “ficção”, eles o aceitaram tal qual era compreendido pelas sociedades arcaicas, onde o mito designa uma “história verdadeira” e preciosa por seu caráter sagrado.
O importante aqui é estudar as sociedades onde o mito é ou foi vivo, no sentido em que fornece os modelos para a conduta humana, conferindo significação e valor à existência.
Esses cultos proféticos proclamam a iminência de uma era fabulosa de abundância e beatitude.
Todas as grandes religiões mediterrâneas e asiáticas possuem mitologias. Apesar das modificações sofridas no decorrer dos tempos, os mitos dos primitivos ainda refletem um estado primordial.
O mito é uma realidade cultural extremamente complexa que pode ser interpretado através de perspectivas múltiplas. Ele conta uma história sagrada, relata acontecimentos ocorridos no tempo primordial, o tempo fabuloso do “principio”; narra como (graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais) uma realidade passou a existir, seja uma realidade total – o Cosmo, ou apenas um fragmento, é sempre a narrativa de uma criação  (relata de que modo algo foi produzido e começou a ser). Os mitos descrevem as várias erupções do sagrado no mundo.
A principal função do mito consiste em revelar modelos exemplares de todos os ritos e atividades humanas significativas.
Embora os protagonistas dos mitos sejam geralmente deuses e Entes Sobrenaturais, enquanto os dos contos são heróis ou animais miraculosos, todos esses personagens têm uma característica em comum: não pertencem ao mundo cotidiano.
Os mitos narram não apenas a origem do Mundo, dos animais, das plantas e do homem, mas também todos os acontecimentos primordiais em conseqüência dos quais o homem se converteu no que é hoje.
Se o Mundo existe, se o homem existe, é porque os Entes Sobrenaturais desenvolveram uma atitude criadora no “princípio”. Após a cosmogonia e a criação do homem, ocorreram outros eventos que determinaram o homem tal qual é hoje e isto, é o resultado daqueles eventos míticos.
O homem é mortal porque algo aconteceu no início dos tempos; se esse algo não tivesse acontecido ele não o seria – teria continuado a existir indefinitivamente, como as pedras; ou poderia mudar periodicamente de pele, como as serpentes, sendo capaz de renovar sua vida.
Para o homem arcaico o mito é uma questão da mais alta importância, lhe ensina as “histórias” que o constituíam e tudo o que se relaciona com sua existência e com seu modo de existir no Cosmo.
Assim como o homem moderno se considera constituído pela história, o homem arcaico se considera um certo número de eventos míticos.
Conhecer os mitos é aprender como as coisas vieram à existência, onde encontrá-las e como fazer para que reapareçam quando desaparecem. Entender a origem de um objeto animal ou planta, equivale a adquirir sobre eles um poder mágico, graças ao qual é possível dominá-los, multiplicá-los ou reproduzi-los. Todavia, não basta conhecer o mito da origem, é preciso recitá-lo; recitando ou celebrando esse mito o indivíduo deixa-se impregnar pela atmosfera sagrada.
O Tempo mítico é um Tempo “forte” porque foi transfigurado pela presença ativa e criadora dos Entes Sobrenaturais. Ao “viver” os mitos, sai-se do Tempo profano, cronológico, ingressando num Tempo “sagrado”, primordial; viver os mitos implica uma experiência verdadeiramente religiosa.
Nas civilizações primitivas o mito desempenha uma função indispensável: ele exprime e enaltece a crença, garante a eficácia do ritual e oferece regras práticas para a orientação do homem.
O mito, é um ingrediente vital da civilização humana, longe de ser uma fábula vã, ele é uma realidade viva.
Toda história mítica pressupõe e prolonga a cosmogonia. Os mitos de origem contam como o Mundo foi modificado enriquecido ou empobrecido.
Para as sociedades arcaicas, a vida não pode ser reparada mais somente recriada mediante um retorno às raízes, esse retorno oferece a esperança de um renascimento.
A cosmogonia é o modelo exemplar para todos os tipos de atos: Não só porque o Cosmo é o arquétipo ideal de toda situação criadora, mas também porque o Cosmo é uma obra divina. Sendo assim, tudo que se assemelha ao Cosmo é sagrado.
Várias tribos acreditam no fim do mundo e em seu renascimento. Na Grécia, observamos duas tradições míticas distintas: a teoria da idade do Ouro, compreendendo o mito de perfeição dos primórdios; e a doutrina cíclica.
A primeira, a Idade do Ouro, sobre o reinado de Cronos, foi uma espécie de Paraíso, os homens tinham vida longa, jamais envelheciam e sua existência assemelhava-se à dos deuses. A teoria cíclica, aparece com Heráclito, e irá influenciar a Teoria do Eterno Retorno.
Outros fenômenos são significativos neste contexto como por exemplo, o desenvolvimento artístico. Desde o início do séc. as artes plásticas, a literatura e a música passaram por transformações tão radicais que se tornou impossível não falar de uma “destruição da linguagem artística”, ao contemplar algumas obras recentes têm–se a impressão de que o artista quis fazer “pouco caso” da pintura. Mais que uma destruição, é uma regressão ao Caos, a uma espécie de massa confusa primordial, percebe-se que o artista está à procura de algo que ainda não exprimiu;  ele precisa reduzir a nada as ruínas acumuladas pelas revoluções plásticas, precisa chegar a uma modalidade germinal da matéria, a fim de recomeçar a história da arte a partir do zero. Em muitos dos artistas modernos, sente-se que a destruição da linguagem plástica nada mais é senão a primeira fase de um processo complexo e que  a ela deverá seguir à criação de um novo Universo.
Na arte moderna, o niilismo dos primeiros revolucionário representa atitudes ultrapassadas, hoje, os artistas não acreditam na degradação e desaparecimento de sua arte. Desse ponto de vista, sua atitude assemelha-se à dos primitivos: eles contribuíram para a destruição do Universo artístico deles a fim de recriar um outro.
Este fenômeno cultural é de grande importância pois são os artistas que representam a verdadeira força criadora de uma civilização.
A destruição das linguagens artísticas coincidiu com o surgimento da psicanálise, a psicologia profunda valorizou o interesse pelas origens, fato este que, tão bem caracteriza o homem das sociedades arcaicas.
Os artistas modernos, longe de serem os neuróticos de que algumas vezes se fala, são ao contrário, psiquicamente mais sãos do que muitos homens modernos, eles compreenderam que um verdadeiro reinício não pode ter lugar senão após um verdadeiro fim. Então, os artistas se puseram a destruir seu Mundo a fim de recriar um Universo artístico no qual o homem possa sonhar...
O desejo de conhecer a origem das coisas não é exclusivamente arcaico. Nos séculos XVII/XIX, multiplicaram-se as pesquisas sobre as origens do Universo,da vida, das espécies e do homem.
No séc. XX por sua vez, o estudo dos primórdios tomou um rumo diferente, para a psicanálise por ex., o verdadeiro primordial é o “primordial humano”, isto é, a primeira infância. A criança vive num tempo mítico, paradisíaco (eis a razão porque o inconsciente apresenta a estrutura de uma mitologia privada).
Pode-se ir mais longe ainda e afirmar não somente que o inconsciente é mitológico, mas também que alguns de seus conteúdos estão carregados de valores cósmicos, pode-se ainda afirmar que, o único contato do homem moderno com a sacralidade cósmica é efetuado pelo inconsciente.
A psicanálise elaborou técnicas que são capazes de identificar os “primórdios” da história pessoal do homem. De todas as ciências, somente a psicanálise chegou à idéia de que o “começo” de todo ser humano é beatífico;  a beatitude da origem é um tema bastante freqüente nas sociedades arcaicas.
O “voltar atrás”, cuja importância para a compreensão do homem e, sobretudo para sua cura, foi percebido por Freud e já era praticado em culturas antigas. O retorno individual à origem é concebido como uma possibilidade de renovar e regenerar a existência daquele que a empreende, esse retorno prepara para um novo nascimento, todavia, este não repete o primeiro, trata-se de um renascimento místico, de ordem espiritual (o acesso a um novo modo de existência).
Em várias civilizações se acreditava que a saúde e a juventude eram conseguidas através deste retorno, único meio que o pensamento arcaico considerava eficaz para anular a obra do Tempo. Tratava-se de abolir o Tempo transcorrido, de recomeçar a existência com todas as suas virtualidades intactas.
 
 TENTATIVA DE DESMISTIFICAÇÃO:
 A “desmistificação” da religião grega e o triunfo com Sócrates e Platão da filosofia rigorosa e sistemática não aboliram definitivamente o pensamento mítico. Platão ainda adere ao modo de pensamento arcaico e na cosmogonia de Aristóteles ainda sobrevivem vário temas mitológicos.
O gênio grego foi incapaz de exorcizar por seus próprios meios o pensamento mítico, mesmo que o último dos deuses fosse destronado e seus mitos relegados ao nível de contos infantis. Isso porque, de um lado, o gênio filosófico grego aceitava o essencial do pensamento mítico, o eterno retorno das coisas,e porque o espírito grego não julgava que a história pudesse tornar-se objeto de conhecimento.
Foi somente devido à descoberta da história, à assimilação radical desse novo modo de ser no Mundo que o mito pôde ser ultrapassado. Porém, o pensamento mítico não foi de todo abolido, ele conseguiu sobreviver, embora modificado e/ou camuflado.E, o mais surpreendente é que, mais que em qualquer parte, ele sobreviveu na historiografia.
 
MITOLOGIA DA MEMÓRIA:
O esquecimento equivale ao “sono”, mas também à perda de si mesmo, à cegueira.
A libertação pode ser comparada ao “despertar”, à tomada de consciência de uma situação que existia desde o princípio, mas que não fora percebida.
A deusa Mnemósine, personificação da memória, irmã de Cronos e dos Oceanos é a mãe das Musas. Ela é onisciente, sabe tudo o que foi, tudo o que é, tudo o que será; quando o poeta é possuído pelas Musas, ele sorve diretamente da ciência de Mnemósine, isto é, do conhecimento das “origens”.
As musas cantam o aparecimento do Mundo, a gênese dos deuses, o nascimento da humanidade. O passado assim revelado é mais que antecedente do presente, é a sua fonte. Ao remontar a ele, a rememoração procura não situar os eventos num quadro temporal, mais atingir as profundezas do ser, descobrir o original, a realidade primordial da qual proveio o Cosmo, e que permite compreender o devir em sua totalidade.
O poeta, inspirado pelas Musas tem acesso à realidades originais; essas realidades manifestaram-se nos Tempos Míticos e constituem o fundamento deste Mundo. Mas, por terem aparecido nas origens, essas realidades não são mais perceptíveis na experiência corrente.
Pitágoras, Empédocles e outros acreditavam na Metempsicose e afirmavam poderem se recordar de suas vidas passadas.
Para Platão aprender é rememorar. A Teoria das Idéias platônica podem ser comparadas ao comportamento do homem nas sociedades arcaicas e tradicionais; o homem dessas sociedades encontra nos mitos os modelos exemplares de todos os seus atos, os mitos lhe asseguram que tudo o que ele fez ou pretende fazer, já foi feito no princípio. Ignorar ou esquecer o conteúdo dessa “memória coletiva” constituída pela tradição equivale à uma regressão ao estado “natural”.
Platão acredita que, viver inteligentemente, ou seja, aprender o verdadeiro, o belo, o bom, é  um antes de tudo, recordar-se de uma experiência puramente espiritual. O “esquecimento”dessa condição é uma conseqüência do processo de reencarnação. Ao voltar a vida terrestre a alma “esquece” as idéias.
Também para Jung, o “inconsciente coletivo” precede a psique individual. O mundo dos arquétipos de Jung assemelha-se até certo ponto ao mundo platônico das Idéias: os arquétipos são transpessoais e não e não participam do Tempo da espécie e mesmo da vida orgânica.
Durante milênios, o homem trabalhou ritualmente e pensou miticamente nas analogias entre o macrocosmo e o microcosmo. Era uma das possibilidades de se “abrir” para o Mundo e de participar da sacralidade do Cosmo. Desde a Renascença, quando se provou que o Universo era infinito, essa dimensão cósmica que o homem acrescenta ritualmente à sua existência nos é negada. Seria normal que o homem moderno caído sobre o domínio do Tempo e observado por sua própria historicidade, procure abrir-se para o Mundo, adquirindo uma nova dimensão nas profundezas temporais.
Desde a antiguidade, o homem se consolava do terror da história, lendo os historiadores de épocas passadas.
Nos  níveis arcaicos da cultura, a religião mantém a “abertura” para um Mundo sobre-humano. Esses valores são transcendentes tendo sido revelados pelos “ancestrais Míticos”.
Esses modelos são vinculados pelos mitos, aos quais compete principalmente despertar e manter a consciência de um outro mundo (o além mundo divino).
É através da experiência do sagrado, do encontro com uma realidade transumana, que nasce a idéia de que algo existe realmente, de que existem valores absolutos, capazes de guiar o homem e de conferir uma significação à existência humana.     É, portanto, através da experiência do sagrado que despontam as idéias de realidade, verdade e significação.
Esse mundo transcende dos deuses, dos heróis e dos ancestrais míticos e é acessível porque o homem arcaico não aceita a irreversibilidade do Tempo. O ritual abole o Tempo profano, e recupera o Tempo sagrado do mito.
O homem das sociedades arcaicas parece repetir o gesto arquétipo. O mito garante a ele que o que ele se prepara para fazer já foi feito e ajuda-o a eliminar as dúvidas que poderia conceber quanto ao resultado de seu empreendimento.
O Mundo “fala” ao homem e, para compreender essa linguagem, basta compreender os mitos e decifrar os símbolos. Através dos objetos deste Mundo, percebe-se os trajes dos Entes e os poderes de um outro Mundo.
Apesar de saber que é um ser humano e de se aceitar como tal, o homem arcaico sabe que é “algo mais”.  Direta ou indiretamente o mito eleva o homem.
 
MITOLOGIA E INSPIRAÇÃO:
 
 
Outro fator de grande importância no estudo do mito é o papel desempenhado por indivíduos criadores.
Pode-se adivinhar quais são as “fontes de inspiração” de uma tal personalidade criadora dentro de uma sociedade arcaica: as “crises”, os “encontros”, as “revelações”, isto é, as experiências religiosas privilegiadas.
É uma criatividade no plano da imaginação religiosa que renova a matéria mitológica tradicional.
Os diferentes especialistas do sagrado, desde os xamãs até os bardos, conseguiram impor ao menos algumas de suas visões às respectivas coletividades.
As experiências religiosas privilegiadas, quando comunicadas através de um enredo fantástico, conseguem impor a toda a comunidade modelos e fontes de inspiração. Tanto nas sociedades arcaicas, como em toda as outras, a cultura se renova graças às experiências criadoras de alguns indivíduos.
O mito ajuda o homem à ultrapassar seus próprios limites e incita-o à elevar-se para onde estão os maiores.
 
CAMUFLAGEM DOS MITOS:
Os primeiros teólogos cristãos tomaram o mito com “fábula”, “ficção”, “mentira”, recusaram-se a ver na pessoa de Jesus uma figura mítica. Todavia os evangelhos estão carregados de elementos mitológicos, além do mais, as figuras e  os rituais de origem judaica e mediterrânea foram assimilados pelo cristianismo.
Um outro problema se impõe quando se estuda as relações entre o pensamento mítico e o cristianismo. Se os cristãos se recusaram a ver em sua religião o mito, qual é a situação do cristianismo face ao mito vivente? Sendo assim, o cristianismo não pode ser dissociado do pensamento mítico.
Os teólogos cristãos negavam que os evangelhos fossem mitos ou histórias maravilhosas. A vida de Jesus era a realização das profecias do Antigo Testamento.
Orígenes reconhece que os Evangelhos apresentam episódios que não são historicamente autênticos embora sejam verdadeiros ao plano espiritual.
Ao proclamar a Encarnação, Ressurreição e Ascensão do Verbo, os cristãos estavam convictos de não apresentarem um novo mito. Porém, eles estavam se utilizando um novo mito.
Embora representado na história, esse drama possibilitou a salvação e existe apenas um meio de obter a salvação: repetir ritualmente o drama e imitar o modelo supremo revelado pela vida e ensinamento de Jesus. Esse comportamento religioso faz parte do pensamento mítico autêntico.
Pelo fato de ser uma religião, o cristianismo teve que conservar ao menos um comportamento mítico: o tempo litúrgico, a recuperação periódica do “princípio”. A experiência religiosa do cristão baseia-se na imitação de Cristo como modelo exemplar.
A imitação de um modelo transumano, a ruptura do tempo, constitui as notas essências do homem das sociedades arcaicas, que encontra no mito a própria fonte de sua existência. * (M. ELIADE, Mythes, rêves et mysteres, pgs 26-27)
Desde o início, o cristianismo sofreu influências múltiplas e contraditórias, sobretudo as do gnosticismo, judaísmo e paganismo.
Os padres da igreja cristianizaram os símbolos, os ritos e os mitos, relacionando-os à uma história sacra.
As verdadeiras dificuldades surgiram quando os missionários cristãos defrontaram-se com  as religiões populares. Eles cristianizaram as Figuras Divinas e os mitos “pagãos”, deuses e heróis, matadores de dragões, transformaram-se em São Jorge;deuses da tempestade foram convertidos em São Elias; as inúmeras deusas da fertilidade foram assemelhadas à Virgem Maria.
Sendo assim,embora camufladamente, os mitos continuaram existindo, mesmo em sociedades e religiões onde foram tão criticados.
 
MITOLOGIA E MODERNIDADE:
Alguns “comportamentos míticos” inda sobrevivem sobre nossos olhos. Não que se trate de “sobrevivência” da mentalidade arcaica mas alguns aspectos e funções do pensamento mítico são constituintes do ser humano.
Pesquisas recentes trouxeram à luz as estruturas míticas das imagens  e comportamentos impostos às coletividades. Este fenômeno é constatado especialmente nos Estados Unidos, onde os personagens das histórias em quadrinhos apresentam a versão moderna dos heróis mitológicos.
Um personagem fantástico, O Superman, tornou-se extremamente popular graças à sua dupla identidade: oriundo de um planeta destruído por uma catástrofe, e dotado de poderes prodigiosos, ele vive na Terra sob a aparência modesta de um jornalista. Essa camuflagem de um herói cujos poderes são literalmente ilimitados, revive um tema mítico bastante conhecido.
O mito do Superman satisfaz às nostalgias secretas do homem moderno que, sabendo-se decaído e limitado, sonha revelar-se um dia um “herói”.
Comportamentos míticos poderiam ser reconhecidos na obsessão do sucesso, tão característica da sociedade moderna, que traduz o desejo de transcender à condição humana; onde se pode notar a nostalgia da “perfeição primordial”.
Observa-se também algo que poderia se chamar de os mitos da elite, os que se cristalizam em torno da criação artística e de sua repercussão cultural e social. Esses mitos conseguiram se impor muito além dos círculos fechados dos iniciados, graças ao complexo de inferioridade do público e dos círculos artísticos.
O mito do artista maldito, que se observou no séc. XIX, está ultrapassado. Hoje, pede-se que ele se molde à sua imagem mítica, que seja estranho, e que produza algo de novo.
“Tudo é permitido! Pela primeira vez na história da Arte não existe mais tensão entre artistas, críticos, colecionadores e o público”.
Todas as experiências autênticas da Arte Moderna refletem certos aspectos de crise espiritual. As elites encontram na extravagância das obras modernas a possibilidade de uma gnose iniciatória. É um “novo mundo” que está sendo reconstruído a partir das ruínas e de enigmas.
Tudo leva a crer que  a redução dos  “Universos Artísticos” ao estado primordial da matéria prima é apenas uma fase de um processo mais complexo; como nas concepções cíclicas das sociedades arcaicas o “Caos” é seguido por uma nova criação, equiparável a uma cosmogonia.
Os traços deste comportamento mitológicos revelam-se no desejo de reencontrar a intensidade com que se viveu ou conheceu, uma coisa pela primeira vez, de recuperar a época beatífica do “princípio”.
“É  sempre a mesma luta contra o Tempo, a mesma esperança de se libertar do peso do “Tempo Morto”, do Tempo que destrói e mata.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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