domingo, 14 de outubro de 2012

não existe nada de bom, a não ser que a gente o faça!

 
 PARAÍSO PERDIDO
 
 


 
Sempre digo que, o maior pecado mortal é o sofrimento. Acho uma ingratidão afinal, estamos aqui para sermos felizes...
Naturalmente, cada um tem a representação pessoal do que seria a felicidade. Contudo, surpreendentemente, esses quadros mentais são muito semelhantes para a grande maioria das pessoas: saúde, amor, bem estar material, contentamento...
Em parte, os símbolos dos nossos desejos são adquiridos na infância, mas podem também ser adquiridos por influência dos outros e são reforçados por propagandas e filmes.
PARECE-NOS QUE SÓ OS OUTROS TEM UMA VIDA FELIZ, NÓS MESMOS NÃO. É necessário que o pessimismo intransigente abra espaço.
Para vivenciarmos inteiramente nossa humanidade, devemos resistir à tentação de delegar a alguém ou algo a responsabilidade por nossas frustrações.
Com concepções enrijecidas, nunca poderemos descobrir o MILAGRE DA VIDA, somos freados por nossos pensamentos e padrões mentais: a mente nos engana, a partir de coisas que os olhos vêem. Precisamos sempre, de novo, ultrapassar os limites de nossos conceitos e crenção.
Procuramos pelo PARAÍSO PERDIDO, por um lugar onde tudo esteja em ordem, onde todos sejam saudáveis, felizes e satisfeitos. Este lugar, todavia, parece sempre estar situado no passado ou no futuro, NUNCA no presente.
. As pessoas tendem a se apegar aos PROBLEMAS CRIADOS PELA MENTE.
Expectativas e esperanças geram um bloqueio no plano da energia. Quando não estamos presos a determinados resultados, a energia está livre para fluir em todas as direções...
"É necessário que o pessimismo intransigente ceda espaço:" ( George Barcat)
Além do pessimismo,  é necessário eliminar a PREGUIÇA  (todos nós conhecemos sua voz tentadora) e também, o MEDO, este é a emoção que mais influência a vida hoje em dia. 
 Temos medo de tudo: queremos mais energia, mas temos medo de sua força; queremos amor, mas temos medo de conquistá-lo ou perdê-lo. Precisamos aceitá-lo e controlá-lo pois, conhecendo nossos medos podemos nos tornar amigo deles.
Sentimentos são energia e cada energia tem sua própria vibração, precisamos estar em contato com nossos sentimentos para fazê-los fluir...
Enquanto o eu não estiver conectado com os próprios sentimentos é impossível sintonizar com os sentimentos dos outros.
Precisamos, sempre DE NOVO, ultrapassar os limites de nossos conceitos, crenças, condicionamentos e programações.
Por meio da sensibilização da consciência torna-se possível o acesso a  novos planos da realidade e também a expanção do ambiente em que se vive. O objetivo, não é eliminar os problemas com pensamentos positivos mas sim, aceitar os fatos, isso leva à claridade, à beleza e a paz.
 Nada existe, a não ser que alguém o faça!

A DECISÃO DE FAZER ALGO QUE, NO FINAL,  NÃO SE SABE NO QUE VAI DAR E COMO VAI SER REFLETIDA NA VIDA FUTURA, É UM PROCESSO DE APRENDIZADO MUITO IMPORTANTE.
Existe uma força que nos carrega e nos guia a todo momento. Entretanto, raramente temos consciência dessa energia. Ela FLUI em tudo, desde as microscópias células, às galaxias, em tudo; em cada pensamento e sentimento.
 
 
 
 ENERGIA VITAL: A enegia vital é tão presente na Natureza quanto o ar que respiramos. Se tivéssemos que lembrar de respirar em pouco tempo, estaríamos todos mortos.
 
 
 ENERGIA DOS DESEJOS:
- Concentre sua atenção em um desejo especialmente forte - escolha aquilo que primeiro surgir no inconsciente.
- Sempre respire fundo, percebendo o ritmo da respiração.
- Imagine que o ar é a energia vital que flui através de você.
- Sinta o ar que entra e sai...Qual sua cor?
- Mergulhe mais e mais na sensação de fluir...
- Se surgirem pensamentos e recordações dê espaço para eles sem se apegar, deixe que fluam junto na beira de sua consciência.
- Faça algumas perguntas ao seu EU ÍNTIMO e escute as respostas.
Responda:
1- Qual foi a ultíma vez que dedicou a si mesmo, uma hora de atenção?
2- O que faria da vida se esse desejo se concretizasse agora?
3- O que eu teria ,que não tinha antes?
4- O que sentiria, que não sentia antes?
5- O que mudará em minha vida se esse desejo se concretizar?
6- O que é o pior que pode acontecer?
REALIZE AGORA O DESEJO EM SUA IMAGINAÇÃO: imagine o maior número possível de detalhes até ter a sensação de que o sonho foi totalmente realizado.
7- O que sinto neste momento?
 
 
 

 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012


MITOLOGIA PESSOAL

 

 


 
       Os mitos são relatos fantásticos que encontram lugar fora do tempo definido, histórias de caráter simbólico, dotadas de lógica própria, criadas e preservadas pela tradição oral. Eles possuem o poder de nos enredar em suas tramas alegóricas, estimulando o inconsciente coletivo e ajudando a construir a mitologia pessoal.

O termo grego müthos, significa fábula ou relato e deriva do verbo muthéin, o qual expressa o ato de inventar histórias. Etimologicamente, está ligado a mithos, que se traduz por fio de teia ou filamento.

Uma crença mais antiga que nossa própria consciência de sua existência, fazem parte do âmago do Universo e conseqüentemente de nossa própria essência; tudo está interligado, todo o esquema já está montado, são como os finíssimos fios que fazem parte da trama de uma teia de aranha. É preciso aprender a ler os “sinais” que nos foram deixados e perduraram durante os séculos, os sinais que não foram esquecidos, os sinais da Natureza.

O mitológico Campbell (1904-1987) em sua obra As máscaras de Deus, cita a dança ritualística como forma de padrões arcaicos de comportamento, igualmente encontrada entre os macacos, os pássaros, os peixes e até mesmo entre as abelhas. E questiona se o homem como os demais seres da criação, não possuiria alguma tendência inata para reagir de forma racial, estritamente padronizada, a certos sinais do meio ou de sua própria espécie.

         Com o transcorrer do tempo, o homem foi cada vez mais  se esquecendo desse seu lado mitológico, desse seu lado mágico; condenando-se assim ao “mundo das sombras”. É preciso enxergar além, abrir-se para o “mundo das idéias”, crer no aparentemente inusitado; como observaram Bergier e Pawels em seu livro O Despertar dos Mágicos: “Esquadrinhar a história invisível é um exercício muito são para o espírito. Desembaraçamo-nos da repugnância pelo inverossímil que é natural, mas que muitas vezes paralisou o conhecimento.” 

         O fantástico virou sinônimo de satírico, algo impossível, coisa de doido, talvez, para camuflar seus poderes... Pois, a descoberta da mitologia pessoal, essa libertação do “mundo das sombras”, a leitura e uso dos símbolos e signos, acarretam um conhecimento superior temido por muitos.

         Muito desse antigo conhecimento perdurou disfarçando sua importância através das histórias infantis: O encanto, a mágica, o valor simbólico e a importância dos objetos, estão camuflados em simples brincadeira de criança. Isso porque em determinada época da história, com o advento do catolicismo, tais crenças foram condenadas com pagãs e somente perduraram por séculos, exatamente por esse seu disfarce, por terem entrado para o “Maravilhoso Universo Infantil”, onde tudo é possível e a censura inexistente.

Também o estudo do Universo onírico é de grande importância tratando-se deste assunto, Freud (1856-1939) e Jung (1875-1961) detiveram-se amplamente sobre este assunto. Freud observou que, muitas vezes, sonhamos com elementos que nada tem haver com a experiência pessoal; chamou tais formas de resíduos arcaicos, que aparentam ser traços primitivos representantes da herança comum do espírito humano. Dando continuidade às idéias de Freud, Jung observou que, assim como nosso corpo é um detalhado museu de órgãos, cada qual com sua longa evolução histórica e filogenética, também a mente deve ter tido uma evolução análoga. Jung chamou de arquétipos (assim como anteriormente o fez Platão), o que Freud chamou de resíduos arcaicos.

Segundo Jung, arquétipos não podem ser herdados geneticamente. O que se transmite de geração a geração, é a capacidade da mente a formar representações simbólicas, padronizadas em seu sentido genérico, mas totalmente variável em detalhes; o arquétipo é na verdade, uma tendência sensitiva dotada de direção e intenção tão marcada como o impulso das aves para fazer seu ninho, ou das formigas para se organizar em colônias.

Tanto os resíduos arcaicos como os arquétipos, são signos cuja transferência de energia se dá com os objetos conforme a vontade da pessoa que o possui. O primitivo, por ter um instinto mais aguçado, tem mais facilidade em ver esse “lado mágico” da vida. Jung em seu livro O Homem – à descoberta de sua alma, afirma que: “O primitivo alia a um mínimo de consciência de si, um máximo de compenetração com o objeto, o qual é capaz de exercer sobre ele a sua magia constringente. Toda a magia e toda a religião primitiva se fundem sobre essas influências e interferências mágicas, que demandam do objeto e cuja origem só pode procurar-se em projeções de conteúdos inconscientes sobre o próprio objeto”. O objeto apresenta apenas uma parcela da projeção, o significado é subjetivo e o sujeito acaba fazendo parte da imago* deste. Assim, a vitalidade e a independência da imago, escapam à consciência de quem as projeta e, como observou Jung: “O objeto exterior consegue por pé na vida interior e nela participar. Eis como, por via inconsciente, um objeto exterior pode exercer uma ação psíquica imediata sobre o sujeito, visto a sua identidade com a imago o ter de certo modo introduzido no próprio seio das rodagens do organismo psíquica do indivíduo. Daí,o “poder mágico” que um objeto pode conter em relação a certos indivíduos”.
 
 * IMAGO
Imago, do latim imagem, mito, significa a representação de uma ideia, a correlação entre um objeto e o seu significado para a mente de cada indivíduo.
 Em botânica, significa a fase da vida da borboleta que se inicia assim que ela abandona a forma de pulpa. É a borboleta jovem, que evoluiu de uma larva rastejante e se transforma em um complexo e esplêndido animal voador.
É uma belíssima demonstração de evolução.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

ESTUDO DO MITO

Há mais de meio século, estudiosos começaram a explorar o mito sob uma perspectiva diferente da até então em voga . Ao invés interpretá-lo na acepção usual do termo, como “fábula”, “ïnvenção”, “ficção”, eles o aceitaram tal qual era compreendido pelas sociedades arcaicas, onde o mito designa uma “história verdadeira” e preciosa por seu caráter sagrado.
O importante aqui é estudar as sociedades onde o mito é ou foi vivo, no sentido em que fornece os modelos para a conduta humana, conferindo significação e valor à existência.
Esses cultos proféticos proclamam a iminência de uma era fabulosa de abundância e beatitude.
Todas as grandes religiões mediterrâneas e asiáticas possuem mitologias. Apesar das modificações sofridas no decorrer dos tempos, os mitos dos primitivos ainda refletem um estado primordial.
O mito é uma realidade cultural extremamente complexa que pode ser interpretado através de perspectivas múltiplas. Ele conta uma história sagrada, relata acontecimentos ocorridos no tempo primordial, o tempo fabuloso do “principio”; narra como (graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais) uma realidade passou a existir, seja uma realidade total – o Cosmo, ou apenas um fragmento, é sempre a narrativa de uma criação  (relata de que modo algo foi produzido e começou a ser). Os mitos descrevem as várias erupções do sagrado no mundo.
A principal função do mito consiste em revelar modelos exemplares de todos os ritos e atividades humanas significativas.
Embora os protagonistas dos mitos sejam geralmente deuses e Entes Sobrenaturais, enquanto os dos contos são heróis ou animais miraculosos, todos esses personagens têm uma característica em comum: não pertencem ao mundo cotidiano.
Os mitos narram não apenas a origem do Mundo, dos animais, das plantas e do homem, mas também todos os acontecimentos primordiais em conseqüência dos quais o homem se converteu no que é hoje.
Se o Mundo existe, se o homem existe, é porque os Entes Sobrenaturais desenvolveram uma atitude criadora no “princípio”. Após a cosmogonia e a criação do homem, ocorreram outros eventos que determinaram o homem tal qual é hoje e isto, é o resultado daqueles eventos míticos.
O homem é mortal porque algo aconteceu no início dos tempos; se esse algo não tivesse acontecido ele não o seria – teria continuado a existir indefinitivamente, como as pedras; ou poderia mudar periodicamente de pele, como as serpentes, sendo capaz de renovar sua vida.
Para o homem arcaico o mito é uma questão da mais alta importância, lhe ensina as “histórias” que o constituíam e tudo o que se relaciona com sua existência e com seu modo de existir no Cosmo.
Assim como o homem moderno se considera constituído pela história, o homem arcaico se considera um certo número de eventos míticos.
Conhecer os mitos é aprender como as coisas vieram à existência, onde encontrá-las e como fazer para que reapareçam quando desaparecem. Entender a origem de um objeto animal ou planta, equivale a adquirir sobre eles um poder mágico, graças ao qual é possível dominá-los, multiplicá-los ou reproduzi-los. Todavia, não basta conhecer o mito da origem, é preciso recitá-lo; recitando ou celebrando esse mito o indivíduo deixa-se impregnar pela atmosfera sagrada.
O Tempo mítico é um Tempo “forte” porque foi transfigurado pela presença ativa e criadora dos Entes Sobrenaturais. Ao “viver” os mitos, sai-se do Tempo profano, cronológico, ingressando num Tempo “sagrado”, primordial; viver os mitos implica uma experiência verdadeiramente religiosa.
Nas civilizações primitivas o mito desempenha uma função indispensável: ele exprime e enaltece a crença, garante a eficácia do ritual e oferece regras práticas para a orientação do homem.
O mito, é um ingrediente vital da civilização humana, longe de ser uma fábula vã, ele é uma realidade viva.
Toda história mítica pressupõe e prolonga a cosmogonia. Os mitos de origem contam como o Mundo foi modificado enriquecido ou empobrecido.
Para as sociedades arcaicas, a vida não pode ser reparada mais somente recriada mediante um retorno às raízes, esse retorno oferece a esperança de um renascimento.
A cosmogonia é o modelo exemplar para todos os tipos de atos: Não só porque o Cosmo é o arquétipo ideal de toda situação criadora, mas também porque o Cosmo é uma obra divina. Sendo assim, tudo que se assemelha ao Cosmo é sagrado.
Várias tribos acreditam no fim do mundo e em seu renascimento. Na Grécia, observamos duas tradições míticas distintas: a teoria da idade do Ouro, compreendendo o mito de perfeição dos primórdios; e a doutrina cíclica.
A primeira, a Idade do Ouro, sobre o reinado de Cronos, foi uma espécie de Paraíso, os homens tinham vida longa, jamais envelheciam e sua existência assemelhava-se à dos deuses. A teoria cíclica, aparece com Heráclito, e irá influenciar a Teoria do Eterno Retorno.
Outros fenômenos são significativos neste contexto como por exemplo, o desenvolvimento artístico. Desde o início do séc. as artes plásticas, a literatura e a música passaram por transformações tão radicais que se tornou impossível não falar de uma “destruição da linguagem artística”, ao contemplar algumas obras recentes têm–se a impressão de que o artista quis fazer “pouco caso” da pintura. Mais que uma destruição, é uma regressão ao Caos, a uma espécie de massa confusa primordial, percebe-se que o artista está à procura de algo que ainda não exprimiu;  ele precisa reduzir a nada as ruínas acumuladas pelas revoluções plásticas, precisa chegar a uma modalidade germinal da matéria, a fim de recomeçar a história da arte a partir do zero. Em muitos dos artistas modernos, sente-se que a destruição da linguagem plástica nada mais é senão a primeira fase de um processo complexo e que  a ela deverá seguir à criação de um novo Universo.
Na arte moderna, o niilismo dos primeiros revolucionário representa atitudes ultrapassadas, hoje, os artistas não acreditam na degradação e desaparecimento de sua arte. Desse ponto de vista, sua atitude assemelha-se à dos primitivos: eles contribuíram para a destruição do Universo artístico deles a fim de recriar um outro.
Este fenômeno cultural é de grande importância pois são os artistas que representam a verdadeira força criadora de uma civilização.
A destruição das linguagens artísticas coincidiu com o surgimento da psicanálise, a psicologia profunda valorizou o interesse pelas origens, fato este que, tão bem caracteriza o homem das sociedades arcaicas.
Os artistas modernos, longe de serem os neuróticos de que algumas vezes se fala, são ao contrário, psiquicamente mais sãos do que muitos homens modernos, eles compreenderam que um verdadeiro reinício não pode ter lugar senão após um verdadeiro fim. Então, os artistas se puseram a destruir seu Mundo a fim de recriar um Universo artístico no qual o homem possa sonhar...
O desejo de conhecer a origem das coisas não é exclusivamente arcaico. Nos séculos XVII/XIX, multiplicaram-se as pesquisas sobre as origens do Universo,da vida, das espécies e do homem.
No séc. XX por sua vez, o estudo dos primórdios tomou um rumo diferente, para a psicanálise por ex., o verdadeiro primordial é o “primordial humano”, isto é, a primeira infância. A criança vive num tempo mítico, paradisíaco (eis a razão porque o inconsciente apresenta a estrutura de uma mitologia privada).
Pode-se ir mais longe ainda e afirmar não somente que o inconsciente é mitológico, mas também que alguns de seus conteúdos estão carregados de valores cósmicos, pode-se ainda afirmar que, o único contato do homem moderno com a sacralidade cósmica é efetuado pelo inconsciente.
A psicanálise elaborou técnicas que são capazes de identificar os “primórdios” da história pessoal do homem. De todas as ciências, somente a psicanálise chegou à idéia de que o “começo” de todo ser humano é beatífico;  a beatitude da origem é um tema bastante freqüente nas sociedades arcaicas.
O “voltar atrás”, cuja importância para a compreensão do homem e, sobretudo para sua cura, foi percebido por Freud e já era praticado em culturas antigas. O retorno individual à origem é concebido como uma possibilidade de renovar e regenerar a existência daquele que a empreende, esse retorno prepara para um novo nascimento, todavia, este não repete o primeiro, trata-se de um renascimento místico, de ordem espiritual (o acesso a um novo modo de existência).
Em várias civilizações se acreditava que a saúde e a juventude eram conseguidas através deste retorno, único meio que o pensamento arcaico considerava eficaz para anular a obra do Tempo. Tratava-se de abolir o Tempo transcorrido, de recomeçar a existência com todas as suas virtualidades intactas.
 
 TENTATIVA DE DESMISTIFICAÇÃO:
 A “desmistificação” da religião grega e o triunfo com Sócrates e Platão da filosofia rigorosa e sistemática não aboliram definitivamente o pensamento mítico. Platão ainda adere ao modo de pensamento arcaico e na cosmogonia de Aristóteles ainda sobrevivem vário temas mitológicos.
O gênio grego foi incapaz de exorcizar por seus próprios meios o pensamento mítico, mesmo que o último dos deuses fosse destronado e seus mitos relegados ao nível de contos infantis. Isso porque, de um lado, o gênio filosófico grego aceitava o essencial do pensamento mítico, o eterno retorno das coisas,e porque o espírito grego não julgava que a história pudesse tornar-se objeto de conhecimento.
Foi somente devido à descoberta da história, à assimilação radical desse novo modo de ser no Mundo que o mito pôde ser ultrapassado. Porém, o pensamento mítico não foi de todo abolido, ele conseguiu sobreviver, embora modificado e/ou camuflado.E, o mais surpreendente é que, mais que em qualquer parte, ele sobreviveu na historiografia.
 
MITOLOGIA DA MEMÓRIA:
O esquecimento equivale ao “sono”, mas também à perda de si mesmo, à cegueira.
A libertação pode ser comparada ao “despertar”, à tomada de consciência de uma situação que existia desde o princípio, mas que não fora percebida.
A deusa Mnemósine, personificação da memória, irmã de Cronos e dos Oceanos é a mãe das Musas. Ela é onisciente, sabe tudo o que foi, tudo o que é, tudo o que será; quando o poeta é possuído pelas Musas, ele sorve diretamente da ciência de Mnemósine, isto é, do conhecimento das “origens”.
As musas cantam o aparecimento do Mundo, a gênese dos deuses, o nascimento da humanidade. O passado assim revelado é mais que antecedente do presente, é a sua fonte. Ao remontar a ele, a rememoração procura não situar os eventos num quadro temporal, mais atingir as profundezas do ser, descobrir o original, a realidade primordial da qual proveio o Cosmo, e que permite compreender o devir em sua totalidade.
O poeta, inspirado pelas Musas tem acesso à realidades originais; essas realidades manifestaram-se nos Tempos Míticos e constituem o fundamento deste Mundo. Mas, por terem aparecido nas origens, essas realidades não são mais perceptíveis na experiência corrente.
Pitágoras, Empédocles e outros acreditavam na Metempsicose e afirmavam poderem se recordar de suas vidas passadas.
Para Platão aprender é rememorar. A Teoria das Idéias platônica podem ser comparadas ao comportamento do homem nas sociedades arcaicas e tradicionais; o homem dessas sociedades encontra nos mitos os modelos exemplares de todos os seus atos, os mitos lhe asseguram que tudo o que ele fez ou pretende fazer, já foi feito no princípio. Ignorar ou esquecer o conteúdo dessa “memória coletiva” constituída pela tradição equivale à uma regressão ao estado “natural”.
Platão acredita que, viver inteligentemente, ou seja, aprender o verdadeiro, o belo, o bom, é  um antes de tudo, recordar-se de uma experiência puramente espiritual. O “esquecimento”dessa condição é uma conseqüência do processo de reencarnação. Ao voltar a vida terrestre a alma “esquece” as idéias.
Também para Jung, o “inconsciente coletivo” precede a psique individual. O mundo dos arquétipos de Jung assemelha-se até certo ponto ao mundo platônico das Idéias: os arquétipos são transpessoais e não e não participam do Tempo da espécie e mesmo da vida orgânica.
Durante milênios, o homem trabalhou ritualmente e pensou miticamente nas analogias entre o macrocosmo e o microcosmo. Era uma das possibilidades de se “abrir” para o Mundo e de participar da sacralidade do Cosmo. Desde a Renascença, quando se provou que o Universo era infinito, essa dimensão cósmica que o homem acrescenta ritualmente à sua existência nos é negada. Seria normal que o homem moderno caído sobre o domínio do Tempo e observado por sua própria historicidade, procure abrir-se para o Mundo, adquirindo uma nova dimensão nas profundezas temporais.
Desde a antiguidade, o homem se consolava do terror da história, lendo os historiadores de épocas passadas.
Nos  níveis arcaicos da cultura, a religião mantém a “abertura” para um Mundo sobre-humano. Esses valores são transcendentes tendo sido revelados pelos “ancestrais Míticos”.
Esses modelos são vinculados pelos mitos, aos quais compete principalmente despertar e manter a consciência de um outro mundo (o além mundo divino).
É através da experiência do sagrado, do encontro com uma realidade transumana, que nasce a idéia de que algo existe realmente, de que existem valores absolutos, capazes de guiar o homem e de conferir uma significação à existência humana.     É, portanto, através da experiência do sagrado que despontam as idéias de realidade, verdade e significação.
Esse mundo transcende dos deuses, dos heróis e dos ancestrais míticos e é acessível porque o homem arcaico não aceita a irreversibilidade do Tempo. O ritual abole o Tempo profano, e recupera o Tempo sagrado do mito.
O homem das sociedades arcaicas parece repetir o gesto arquétipo. O mito garante a ele que o que ele se prepara para fazer já foi feito e ajuda-o a eliminar as dúvidas que poderia conceber quanto ao resultado de seu empreendimento.
O Mundo “fala” ao homem e, para compreender essa linguagem, basta compreender os mitos e decifrar os símbolos. Através dos objetos deste Mundo, percebe-se os trajes dos Entes e os poderes de um outro Mundo.
Apesar de saber que é um ser humano e de se aceitar como tal, o homem arcaico sabe que é “algo mais”.  Direta ou indiretamente o mito eleva o homem.
 
MITOLOGIA E INSPIRAÇÃO:
 
 
Outro fator de grande importância no estudo do mito é o papel desempenhado por indivíduos criadores.
Pode-se adivinhar quais são as “fontes de inspiração” de uma tal personalidade criadora dentro de uma sociedade arcaica: as “crises”, os “encontros”, as “revelações”, isto é, as experiências religiosas privilegiadas.
É uma criatividade no plano da imaginação religiosa que renova a matéria mitológica tradicional.
Os diferentes especialistas do sagrado, desde os xamãs até os bardos, conseguiram impor ao menos algumas de suas visões às respectivas coletividades.
As experiências religiosas privilegiadas, quando comunicadas através de um enredo fantástico, conseguem impor a toda a comunidade modelos e fontes de inspiração. Tanto nas sociedades arcaicas, como em toda as outras, a cultura se renova graças às experiências criadoras de alguns indivíduos.
O mito ajuda o homem à ultrapassar seus próprios limites e incita-o à elevar-se para onde estão os maiores.
 
CAMUFLAGEM DOS MITOS:
Os primeiros teólogos cristãos tomaram o mito com “fábula”, “ficção”, “mentira”, recusaram-se a ver na pessoa de Jesus uma figura mítica. Todavia os evangelhos estão carregados de elementos mitológicos, além do mais, as figuras e  os rituais de origem judaica e mediterrânea foram assimilados pelo cristianismo.
Um outro problema se impõe quando se estuda as relações entre o pensamento mítico e o cristianismo. Se os cristãos se recusaram a ver em sua religião o mito, qual é a situação do cristianismo face ao mito vivente? Sendo assim, o cristianismo não pode ser dissociado do pensamento mítico.
Os teólogos cristãos negavam que os evangelhos fossem mitos ou histórias maravilhosas. A vida de Jesus era a realização das profecias do Antigo Testamento.
Orígenes reconhece que os Evangelhos apresentam episódios que não são historicamente autênticos embora sejam verdadeiros ao plano espiritual.
Ao proclamar a Encarnação, Ressurreição e Ascensão do Verbo, os cristãos estavam convictos de não apresentarem um novo mito. Porém, eles estavam se utilizando um novo mito.
Embora representado na história, esse drama possibilitou a salvação e existe apenas um meio de obter a salvação: repetir ritualmente o drama e imitar o modelo supremo revelado pela vida e ensinamento de Jesus. Esse comportamento religioso faz parte do pensamento mítico autêntico.
Pelo fato de ser uma religião, o cristianismo teve que conservar ao menos um comportamento mítico: o tempo litúrgico, a recuperação periódica do “princípio”. A experiência religiosa do cristão baseia-se na imitação de Cristo como modelo exemplar.
A imitação de um modelo transumano, a ruptura do tempo, constitui as notas essências do homem das sociedades arcaicas, que encontra no mito a própria fonte de sua existência. * (M. ELIADE, Mythes, rêves et mysteres, pgs 26-27)
Desde o início, o cristianismo sofreu influências múltiplas e contraditórias, sobretudo as do gnosticismo, judaísmo e paganismo.
Os padres da igreja cristianizaram os símbolos, os ritos e os mitos, relacionando-os à uma história sacra.
As verdadeiras dificuldades surgiram quando os missionários cristãos defrontaram-se com  as religiões populares. Eles cristianizaram as Figuras Divinas e os mitos “pagãos”, deuses e heróis, matadores de dragões, transformaram-se em São Jorge;deuses da tempestade foram convertidos em São Elias; as inúmeras deusas da fertilidade foram assemelhadas à Virgem Maria.
Sendo assim,embora camufladamente, os mitos continuaram existindo, mesmo em sociedades e religiões onde foram tão criticados.
 
MITOLOGIA E MODERNIDADE:
Alguns “comportamentos míticos” inda sobrevivem sobre nossos olhos. Não que se trate de “sobrevivência” da mentalidade arcaica mas alguns aspectos e funções do pensamento mítico são constituintes do ser humano.
Pesquisas recentes trouxeram à luz as estruturas míticas das imagens  e comportamentos impostos às coletividades. Este fenômeno é constatado especialmente nos Estados Unidos, onde os personagens das histórias em quadrinhos apresentam a versão moderna dos heróis mitológicos.
Um personagem fantástico, O Superman, tornou-se extremamente popular graças à sua dupla identidade: oriundo de um planeta destruído por uma catástrofe, e dotado de poderes prodigiosos, ele vive na Terra sob a aparência modesta de um jornalista. Essa camuflagem de um herói cujos poderes são literalmente ilimitados, revive um tema mítico bastante conhecido.
O mito do Superman satisfaz às nostalgias secretas do homem moderno que, sabendo-se decaído e limitado, sonha revelar-se um dia um “herói”.
Comportamentos míticos poderiam ser reconhecidos na obsessão do sucesso, tão característica da sociedade moderna, que traduz o desejo de transcender à condição humana; onde se pode notar a nostalgia da “perfeição primordial”.
Observa-se também algo que poderia se chamar de os mitos da elite, os que se cristalizam em torno da criação artística e de sua repercussão cultural e social. Esses mitos conseguiram se impor muito além dos círculos fechados dos iniciados, graças ao complexo de inferioridade do público e dos círculos artísticos.
O mito do artista maldito, que se observou no séc. XIX, está ultrapassado. Hoje, pede-se que ele se molde à sua imagem mítica, que seja estranho, e que produza algo de novo.
“Tudo é permitido! Pela primeira vez na história da Arte não existe mais tensão entre artistas, críticos, colecionadores e o público”.
Todas as experiências autênticas da Arte Moderna refletem certos aspectos de crise espiritual. As elites encontram na extravagância das obras modernas a possibilidade de uma gnose iniciatória. É um “novo mundo” que está sendo reconstruído a partir das ruínas e de enigmas.
Tudo leva a crer que  a redução dos  “Universos Artísticos” ao estado primordial da matéria prima é apenas uma fase de um processo mais complexo; como nas concepções cíclicas das sociedades arcaicas o “Caos” é seguido por uma nova criação, equiparável a uma cosmogonia.
Os traços deste comportamento mitológicos revelam-se no desejo de reencontrar a intensidade com que se viveu ou conheceu, uma coisa pela primeira vez, de recuperar a época beatífica do “princípio”.
“É  sempre a mesma luta contra o Tempo, a mesma esperança de se libertar do peso do “Tempo Morto”, do Tempo que destrói e mata.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

nas entrelinhas dos CONTOS DE FADA...



CONTOS DE FADA

Os contos de fadas são uma variação do conto popular ou fábula. Partilham com estes o fato de serem uma narrativa curta, transmitida oralmente, e onde o herói ou heroína tem de enfrentar grandes obstáculos antes de triunfar contra o mal. Caracteristicamente envolvem algum tipo de magia, metamorfose ou encantamento, e apesar do nome, animais falantes são muito mais comuns neles do que as fadas propriamente ditas. Alguns exemplos: "Rapunzel", "Branca de Neve e os Sete Anões" e "A Bela e a Fera".
 

FADA:
A palavra portuguesa "fada" vem do latim fatum (destino, fatalidade, fado etc). O termo se reflete nos idiomas das principais nações européias: fée em francês, fairy em inglês, fata em italiano, Fee em alemão e hada em espanhol. Por analogia, os "contos de fadas" são denominados conte de fées na França, fairy tale na Inglaterra, cuento de hadas na Espanha e racconto di fata na Itália. Na Alemanha, até o século XVII era utilizada a expressão Feenmärchen, sendo substituída por Märchen ("narrativa popular", "história fantasiosa") depois do trabalho dos Irmãos Grimm. No Brasil e em Portugal, os contos de fadas, na forma como são hoje conhecidos, surgiram em fins do século XIX, sob o nome de contos da carochinha. Esta denominação foi substituída por "contos de fadas" no século XX.

Fadas são entidades fantásticas, características do folclore europeu ocidental. Apresentam-se como mulheres de grande beleza, imortais e dotadas de poderes sobrenaturais, capazes de interferir na vida dos mortais em situações-limite. As fadas também podem ser diabólicas, sendo corriqueiramente denominadas "bruxas" em tal condição; embora as bruxas "reais" sejam usualmente retratadas como megeras, nem sempre os contos descrevem fadas "do mal" como desprovidas de sua estonteante beleza.
As primeiras referências às fadas surgem na literatura cortesã da Idade Média e nas novelas de cavalaria do Ciclo Arturiano, tomando por base textos-fontes de origem reconhecidamente céltico-bretã. Tal literatura destaca o amor mágico e imortal vinculado às figuras de fadas como Morgana e Viviana, o que evidencia o status social elevado das mulheres na cultura celta, na qual possuíam uma ascendência e um poder muito maiores do que entre outros povos contemporâneos.

 
PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS:
Podem contar ou não com a presença de fadas, mas fazem uso de magia e encantamentos;
Seu núcleo problemático é existencial (o herói ou a heroína buscam a realização pessoal);
Os obstáculos ou provas constituem-se num verdadeiro ritual de iniciação para o herói ou heroína.
Os elementos constantes, permanentes, do conto maravilhoso são as funções dos personagens, independentemente da maneira pela qual eles as executam. Essas funções formam as partes constituintes básicas do conto.
"O número de funções dos contos de magia conhecidos é limitado."
"A seqüência das funções é sempre idêntica."
"Todos os contos de magia são monotípicos quanto à construção."
 
SIGNIFICADO OCULTO:
 Ao longo dos últimos 100 anos, os contos de fadas e seu significado oculto têm sido objeto da análise dos seguidores de diversas correntes da psicologia. Sheldon Cashdan, por exemplo, sugere que os contos seriam "psicodramas da infância" espelhando "lutas reais". Na visão de Cashdan, "embora o atrativo inicial de um conto de fada possa estar em sua capacidade de encantar e entreter, seu valor duradouro reside no poder de ajudar as crianças a lidar com os conflitos internos que elas enfrentam no processo de crescimento". Cashdan  prossegue em sua análise sobre a vinculação entre os contos de fadas e os conflitos internos infantis. Cada Conto de Fada é único, no sentido em que trata e uma predisposição falha ou doentia do eu. Logo que passamos do "ERA UMA VEZ", descobrimos que os Contos de Fada falam de VAIDADE, GULA, INVEJA,LUXÚRIA, HIPOCRISIA, AVAREZA ou PREGUIÇA -"os 7 pecados capitais da infância". Embora um determinado Conto de Fada possa tratar de mais de um pecado, em geral, um deles, ocupa o centro da trama.
 
 
O modo pelo qual os contos de fada resolvem esses conflitos é oferecendo às crianças um palco onde elas podem representar seus conflitos interiores. As crianças, quando ouvem um conto de fada, projetam inconscientemente partes delas mesmas em vários personagens da história, usando-os como repositórios psicológicos para elementos contraditórios do eu.

 
A JORNADA INTERIOR:
Pelo seu núcleo problemático ser existencial, os contos de fadas podem também ser encarados como "uma jornada em quatro etapas, sendo cada etapa da jornada uma estação no caminho da autodescoberta":
TRAVESSIA: "leva o herói ou heroína a uma terra diferente, marcada por acontecimentos mágicos e criaturas estranhas".
ENCONTRO: "com uma presença diabólica –uma madrasta malévola, um ogro assassino, um mago ameaçador ou outra figura com características de feiticeiro".
CONQUISTA: "o herói ou heroína mergulha numa luta de vida ou morte com a bruxa, que leva inevitavelmente à morte desta última".
CELEBRAÇÃO: "um casamento de gala ou uma reunião de família, em que a vitória sobre a bruxa é enaltecida e todos vivem felizes para sempre".
 
 
TRADIÇÃO ORAL E ESCRITA:
Conforme registra Squire, "uma mitologia deve ser sempre mais velha do que os mais antigos versos e histórias que a celebram. Poemas e sagas elaborados não são feitos num dia, ou num ano". Efetivamente, embora a tradição oral céltica do "conto mágico" possa ser velha de milhares de anos, foi somente no século VII, com a transcrição do poema épico anglo-saxão Beowulf que ela começou a ter registro material. As fadas, contudo, precisariam esperar até o século IX para serem registradas nas páginas dos Mabinogion, texto galês composto por quatro histórias distintas. Os Mabinogion não assinalam somente o surgimento das fadas, mas também a transformação das aventuras reais que porventura podem ter dado origem ao Ciclo Arturiano, em lendas. Um dos quatro poemas narrativos que o compõe, "O Sonho de Rhonabry", descreve a luta do rei Artur contra os romanos. Após ser traído por seu sobrinho Morderete (posteriormente transformado num filho ilegítimo, Sir Mordred) e mortalmente ferido, o rei é levado pelas fadas para a mítica ilha de Avalon, onde elas residem.
Em 1155, o Roman de Brut de Wace retoma as aventuras lendárias de Artur e seus cavaleiros. Em destaque, a figura da fada Viviana que cria, no lago onde vive, um menino que havia encontrado abandonado (e que, futuramente, se transformaria em Sir Lancelot, o Cavaleiro do Lago). Posteriormente, a personalidade de Viviana sofre transformações ao longo de diversas histórias: de protetora de Lancelot, torna-se companheira do mago Merlin e, finalmente, surge como uma "sedutora maligna" que aprisiona o mago num círculo mágico. Ainda no século XII, os Lais de Marie de France cumpriram o papel de diluir a cultura céltico-bretã pelas cortes de toda a Europa e facilitar sua absorção pelo cristianismo. Neste processo, no entanto, os mitos poéticos celtas gradualmente perderam sua dimensão sobrenatural. Embora o cristianismo possua um forte elemento mítico, esta palavra adquiriu após ele um significado de "fantasioso, absurdo, não-histórico". Os culpados por isso teriam sido justamente os trovadores franco-normandos, que transformaram o que era originalmente uma "linguagem mágica" em vulgares romances de cavalaria.
Diferentemente do que se poderia pensar, os contos de fadas não foram escritos para crianças, muito menos para transmitir ensinamentos morais. Em sua forma original, os textos traziam doses fortes de adultério, incesto, canibalismo e mortes hediondas.
 É por isso que muitos dos primeiros contos de fada incluíam exibicionismo, estupro e voyeurismo. Em uma das versões de Chapeuzinho Vermelho, a heroína faz um striptease para o lobo, antes de pular na cama com ele.
Na bela adormecida, o príncipe abusa da princesa em seu sono e depois parte, deixando-a grávida. E no conto A Princesa que não conseguia rir, a heroína é condenada a uma vida de solidão porque, inadvertidamente, viu determinadas partes do corpo de uma bruxa.
 




ROMANCES PRECIOSOS:
De fins do século XVII até pouco antes da Revolução Francesa, a decadência do racionalismo clássico deu margem ao surgimento de uma literatura "extra-oficial" que celebrava a "exaltação da fantasia, do imaginário, do sonho, do inverossímil". Em sua produção e divulgação destacou-se o papel das preciosas, mulheres cultas que reuniam em seus "salões" a elite intelectual da época, muitas vezes para apreciar exclusivas dramatizações de contos de fadas. Uma das preciosas mais conhecidas, tanto por sua produção literária quanto por sua vida escandalosa, foi a jovem baronesa Madame D'Aulnoy, que em 1690 publicou o "romance precioso" História de Hipólito, onde há um episódio, a "História de Mira", protagonizado por uma fada. Mira transformou-se num sucesso e lançou moda na corte francesa, fazendo com que Mme. D'Aulnoy escrevesse mais oito romances feéricos entre 1696 e 1698,, dentre os quais se destacam Contos de Fadas, Novos Contos de Fadas e Ilustres Fadas. Nas páginas destas obras surgem contos como "O pássaro azul", "A princesa de cabelos de ouro", "O ramo de ouro", posteriormente reaproveitados como literatura infantil. O ambiente propício criado pelos romances preciosos possibilitou a acolhida de As mil e uma noites no início do século XVIII, e perdurou até fins do século, quando, entre 1785 e 1789 foi publicada a série "Gabinete de Fadas - Coleção Escolhida de Contos de Fadas e Outros Contos Maravilhosos". Seus 41 volumes, escritos por vários autores, marcam o fim deste tipo de produção literária voltado exclusivamente para o público adulto.

 
CONTOS DE FADA PARA CRIANÇAS:
As versões infantis de contos de fadas hoje consideradas clássicas, devidamente expurgadas e suavizadas, teriam nascido quase por acaso na França do século XVII, na corte de Luís XIV, pelas mãos de Charles Perrault. Para Sheldon Cashdan, em referência aos países de língua inglesa, a transformação dos contos de fadas em literatura infantil (ou sua popularização) só teria mesmo ocorrido no século XIX, em função da atividade de vendedores ambulantes ("mascates") que viajavam de um povoado para o outro "vendendo artigos domésticos, partituras e pequenos volumes baratos chamados de chapbooks". Estes chapbooks (ou cheap books, "livros baratos" em inglês), eram vendidos por poucos centavos e continham histórias simplificadas do folclore e contos de fadas expurgados das passagens mais fortes, o que lhes facultava o acesso a um público mais amplo e menos sofisticado. Em 1697, Perrault publicou Contes de ma Mère l'Oye ("Contos da minha Mãe Gansa"), uma coletânea de narrativas populares folclóricas e que, num primeiro momento, não se destinavam a crianças, mas a embasar a defesa da literatura francesa (considerada inferior aos clássicos greco-romanos por acadêmicos da época) e da causa feminista, que possuía como uma de suas líderes a sobrinha de Perrault, Mlle. Héritier. As duas primeiras adaptações ("A paciência de Grisélidis", de 1691 e "Os desejos ridículos", de 1694) reforçam esta tese. Apenas em 1696, com a adaptação de "A Pele de Asno" é que Perrault manifesta a intenção de escrever para crianças, principalmente meninas, orientando sua formação moral. A Mère l'Oye era uma figura familiar dos velhos contos folclóricos franceses, sempre cercada pelos filhotes que ouviam suas histórias fascinados. Todavia, pelo hábito das mulheres contarem histórias enquanto teciam durante os dias longos de inverno, a capa do livro foi ilustrado com a vinheta de uma velha fiandeira, não de uma gansa. A Mère l'Oye passou então a ser associada com a figura da fiandeira, que ganhou nomes locais nos vários países onde os contos foram traduzidos ("Carochinha", por exemplo).
Principais contos da "Mère l'Oye": A Bela Adormecida no Bosque, Chapeuzinho Vermelho, O Barba Azul, O Gato de Botas, As Fadas, A Gata Borralheira, Henrique de Topete e O Pequeno Polegar.
Depois de atravessar uma fase de desinteresse por parte do público adulto após a Revolução Francesa, os contos de fadas despertaram novamente a atenção dos pesquisadores no início do século XIX, graças aos estudos de Gramática Comparada que, tomando o sânscrito por base, buscavam descobrir a evolução das diversas línguas e dialetos, e assim, determinar a identidade nacional de cada povo. Tendo isto em mente, mais de 100 anos após Perrault ter publicado as histórias da Mãe Gansa, os folcloristas Jacob e Wilhelm Grimm, integrantes do Círculo Intelectual de Heidelberg, efetuaram um trabalho de coleta de antigas narrativas populares com o qual esperavam caracterizar o que havia de mais típico no espírito do povo alemão (mesmo que muitas destas narrativas originalmente nada tivessem de germânicas). Como principais fontes da tradição oral, os Grimm se valeram da prodigiosa memória da camponesa Katherina Wieckmann e de uma amiga da família, Jeannette Hassenpflug, de ascendência francesa. Como resultado de sua pesquisa, entre 1812 e 1822, os irmãos Grimm publicaram uma coletânea de 100 contos denominada Kinder und Hausmaerchen ("Contos de fadas para crianças e adultos"). As inúmeras semelhanças de episódios e personagens com aqueles das histórias de Perrault evidenciam que mais do que um fundo comum de fontes folclóricas, os Grimm podem ter simplesmente lançado mão de adaptações das histórias recolhidas pelo estudioso francês.
Principais contos de "Kinder und Hausmaerchen": Pele de Urso, A Bela e a Fera, A Gata Borralheira e João e Maria.

 
 Andersen: o "Pai" da Literatura Infantil-  Já imbuído do forte (e melancólico) espírito do Romantismo, o poeta e novelista dinamarquês Hans Christian Andersen escreveu cerca de duzentos contos infantis, parte retirados da cultura popular, parte de sua própria lavra. Publicados com o título geral de Eventyr ("Contos"), entre 1835 e 1872, eles consagraram Andersen como o verdadeiro criador da literatura infantil.
Principais contos de "Eventyr": A Roupa Nova do Imperador, O Patinho Feio, Os Sapatinhos Vermelhos, A Pequena Sereia, A Pequena Vendedora de Fósforos, A Princesa e a Ervilha.
 
Carroll e Collodi: o "fantástico absurdo"- Na segunda metade do século XIX, os contos de fadas começam novo ciclo de decadência. Em lugar do sobrenatural, o nonsense de base racionalista. O principal representante desta nova escola é Lewis Carroll, a partir do livro "Alice no País das Maravilhas, de 1865. Outro que obteve êxito em fundir o maravilhoso com o racionalismo foi o italiano Carlo Collodi, que em 1883. publicou "Pinóquio", um dos maiores sucessos da literatura infantil mundial. É ali que surge não somente o boneco cujo sonho era se transformar em gente, mas a Fada Azul, uma benfeitora mágica capaz de transformar sonhos em realidade.





A reportagem de capa da edição de setembro é de Pablo Nogueira e Martha San Juan. Segue anexo resumo e link.
Não se fazem mais contos de fadas como antigamente – açucarados e com frágeis donzelas. As novas releituras trazem tons mais sombrios e mulheres valentes. Curiosamente, estão mais próximas das histórias originais compiladas pelos irmãos Grimm há 200 anos.
 
Os príncipes que se cuidem. Depois de Rapunzel cortar as madeixas e se casar com um bandido na animação Enrolados, que passou pelos cinemas em 2011, este ano foi a vez de Branca de Neve surprender o público. A atriz Kristen Stewart, famosa como protagonista da série Crepúsculo, encarna uma versão mais gótica da clássica personagem em Branca de Neve e o Caçador. A mocinha de cabelos negros e pele branquíssima aparece envergando espada, escudo e armadura.
Branca de Neve apareceu ainda em outra produção hollywoodiana lançada este ano: Espelho, espelho meu. Com Julia Roberts no papel de madrasta, o filme apresenta uma variante mais cômica da história, com direito a um príncipe atrapalhado e anões transformados num bando de ladrões.



 
Já na telinha, o seriado americano Once upon a time (expressão em inglês equivalente ao nosso era uma vez), concebido pelos mesmos produtores do seriado Lost, vem obtendo expressivos índices de audiência junto ao público adulto, inclusive no Brasil. Passa-se numa cidade americana onde todos os habitantes são personagens de contos de fadas que perderam a memória graças à ação da Rainha Má. A protagonista é, quem diria, a filha da união entre Branca de Neve e seu príncipe encantado.
 
Outras donzelas frágeis dos contos de fadas estão em processo de reinvenção. Nos dois últimos anos, ambiciosas versões adultas de Alice e de Chapeuzinho Vermelho também chegaram às telas. Atualmente, estão em andamento novas produções para histórias como João e Maria e A Bela Adormecida, esta última contada do ponto de vista de Malévola (a bruxa má) e com Angelina Jolie escalada para o papel principal.
Toda esta movimentação também pode ser lida como uma grande e espontânea celebração dos Contos maravilhosos para as crianças e para o lar, o clássico da literatura infantil de autoria dos irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859) Grimm, que este ano comemora seu bicentenário. Além de motivar lançamentos literários e exposições por todo planeta, a data também está sendo comemorada na área dos estudos de literatura, em que pesquisadores têm se dedicado tanto a recuperar as formas arcaicas dessas narrativas quanto a mapear as transformações que estão conferindo novo vigor ao gênero literário.
A professora Karin Volobuef, da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp em Araraquara, é referência nessa área de pesquisa no Brasil. Ela lidera um grupo dedicado ao estudo das “vertentes do fantástico na literatura”, que reúne acadêmicos de oito universidades de vários Estados. Está à frente também de um projeto em que compara diversas narrativas do chamado gênero maravilhoso, tendo como ponto de partida justamente os textos dos irmãos Grimm. E ainda está preparando uma nova tradução completa para o português dos contos dos irmãos alemães; a última é de 1961.
Karin explica que as versões mais antigas dessas narrativas pouco podiam tranquilizar as crianças inquietas com a hora de dormir. “Claro que os contos apresentavam castelos, príncipes, princesas e fadas, pois estes elementos faziam parte do imaginário”, diz. Mas esses personagens viviam tramas entremeadas por vinganças, assassinatos, traições e até canibalismo e incesto. “Na forma mais antiga da história de Chapeuzinho Vermelho, ela era devorada pelo lobo. Não havia o final feliz gerado pelo caçador”, conta Karin.
A pesquisadora tenta entender os motivos pelos quais o gênero, no passado, incorporava elementos tão violentos. Uma explicação possível é proposta pelo historiador americano Robert Darnton, que enxerga neles o reflexo das vidas dos camponeses medievais, marcadas pelo trabalho árduo, pela alimentação insuficiente e pela alta mortalidade, especialmente de mulheres durante o parto. Por isso o grande número de madrastas e o tratamento desigual e impiedoso que elas dispensam aos entea-dos, que não seria “invenção da carochinha, mas uma estratégia de sobrevivência para aumentar a chance de seus próprios filhos”, escreve Karin, numa das análises que produziu sobre o tema. Continue lendo:


 






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